Algumas cronicas Inéditas do novo livro de José Cleves

 

O ceguinho e o espantalho

O surdo e o cego conversam na rua sob os olhares indiferentes dos transeuntes.

-Cê ta bonito hoje, hein ceguinho?

-Gostou?

-Fala alto.

-Gooostou?

-Tá lindo de calça vermelha e camisa verde com florzinhas lilás.

-Cêta falando que me deram uma calça vermelha para vestir com camisa verde com florzinha lilás, é isso?

-É, cara, tu ta mais feio do que espantalho em plantação de arroz. Só faltou o chapéu de pano.

-Arrrrrr!

-Se fosse tecido de cetim, podia dizer que era fantasia de carnaval das antigas, mas calça de pano de saco, coisa mais ridícula...

O ceguinho passa a mão na roupa com o olhar perdido no horizonte e trinca os dentes.

-Filho da puta, vou ferrar ele hoje, juro por Deus.

-Quem??? Vai ferrar quem?

-Luiz Noiado, filho de uma rapariga. Me vendeu essa roupa falando que era confecção da moda, roupa de rico, Kalvin não sei o que, camisa de seda francesa, entendeu?

-Que é roupa, não tenho dúvida. Mas confecção da moda, só se for em bloco de carnaval bem fulera, tipo bumba meu boi que tinha lá na minha terra, bem antigamente. Mesmo assim, transparente desse jeito, era por o pé na rua e a polícia grampear na hora.

O ceguinho coloca as duas mãos na parte baixa e encosta a bunda na parede.

-Nossa! Tá aparecendo tudo, mesmo?

-Grita, homem, não tô ouvindo nada.

-Tá aparecendo tudo mesmo, fala surdinho filho de uma puta?

-Tá tudo de fora, cara, uma marmota. Cego, palhaço e indecente, só podia ser você mesmo.É atentado violento ao pudor, cadeia, entendeu seu ceguinho aparecido?

José Arimatéia de Jesus, o Ceguinho da Loteria, como era conhecido na cidade, agacha de vergonha, encobre o rosto entre as pernas e pede ao surdinho para arrumar uma roupa direito para ele.

-Dou R$ 30,00 num par de roupa.

-Quanto?

-R$ 40,00.

-Fala alto, coisa esquisita.

-R$ 50,00.Pronto – berra o ceguinho quase chorando.

-Passa a grana que vou te vestir a melhor roupa que tenho – disse-lhe no ouvido o surdinho. –É coisa de 10 minutinhos.

Passou uma hora e nada do surdinho. O Ceguinho já não se agüentava naquele local fedorento, um muro de fundo de lote, quase caindo, quando um vizinho, temendo ver aquele cara estranho nos fundos de sua casa, chama a polícia que pede a descrição do suspeito.

"É um cara de meia estatura, cheguei bem perto para ver; tá bem vestido com uma calça preta de linho da Kalvin Klein e uma camisa de seda branca Mulberry, nova, não parece ser um ladrão, mas tem quase duas horas que está sentado na mesma posição no muro aqui de casa. Pode estar passando mal".

Minutos depois, já na delegacia sabendo do golpe, o ceguinho é observado por uma senhora de meia idade que comenta, deslumbrada:

-Roupa bonita...

O ceguinho vira-se para onde vem a voz e berra:

-A puta que te pariu

Jararaca pintada

Que o Zenor gosta de um boteco, ninguém duvida. Mas poucos conhecem a sua aptidão para a coisa.

-Boteco bom abre às 7h e fecha quando sai o último freguês, ainda que sem gastar um tostão. Encostou o umbigo no balcão, tem que ser respeitado como uma autoridade do estabelecimento, entendeu?

Lico faz sinal de positivo com conhecimento de causa. Praticamente nasceu dentro do boteco e hoje, aos 59 anos, virou um freguês residual. Mesmo sem poder beber por causa de uma complicação hepática, passa em revista praticamente todos os botecos do bairro. Tem o estereotipo do aposentado bonachão, daqueles que não fazem nada na vida, a não ser arrastar chinelo o dia todo. Zenor é diferente. Com aquele olhar de peixe morto e o inconfundível bigodinho de cantor de bolero, tem 55 anos de boteco, na qualidade de consumidor em plena atividade. Começou aos 12 anos lavando copo e aos 16 já estava do outro lado do balcão bebericando.  É mestre em caipirinha, doutorado em fogo paulista e pós-doutorado em misturas etílicas de sabores variados e difusos na vida de um consumidor contumaz.

Aliás, a sua monografia sobre cuba libre com cachaça, realizado no tradicional La Budeguita, em Havana, rendeu-lhes efusivos elogios na Confraria da Cachaça, um dos maiores movimentos etílicos do País na defesa da água ardente.

            -És um mestre, doutor – festeja Lico, reconhecendo os atributos do amigo famoso que abre e fecha qualquer boteco sem espantar freguês.

            -O segredo é saber degustar, curtir o paladar, sentir o produto – ensina Zenor estalando a língua com os olhos fechado de puro prazer pela degustação do Nega Fulô, o seu aperitivo preferido. Uma mistura de pinga com leite de coco, groselha, gelo picado, cereja e casca de limão.

            -Gosto com chá de cointreau – palpita Lico, demonstrando conhecimento.

            O duelo de Zenor e Lico no fundo do balcão é acompanhado por vários outros fregueses embasbacados com o alto conhecimento dos dois sobre os variados tipos de drinques nacionais, até que chega Curió que, de passarinho, só tem o nome. É uma mistura de gorila com burro bravo e gambá de alambique, com a diferença de feder mais do que o roedor famoso.

            Chico, o dono do boteco, tira da prateleira uma garrafa de pinga e mostra para Curió que balança a cabeça em sinal de negativo. Pega outra garrafa, dá um sorriso amarelo para o Negão que a rejeita, troca por uma mais em cima que é aprovada pelo freguês com o sinal de positivo.

            Curió vira o copo de uma só vez, passa o olho em revista na prateleira e pede outra.

            -Traz aquela...

            -Essa?!

            -Aquela, a da jararaca.

            Chico sobe num banquinho, pega a garrafa e serve Curió que vira-se para um bolo de fregueses e faz a oferta apresentando o copo aos presentes.

            -Vão?

            Lico recusa, mas Zenor quis saber da novidade.

            -Jararaca?!

            -A sogra dela, não tem coisa melhor no mundo. Trouxe ontem para o Chico - esnoba Curió. 

            -No boteco de cima tem uma com o mesmo nome que não gostei –desdenha o mestre mandando servir a dose.

            -Essa é jararaca pintada – adverte Chico, orgulhoso de seu produto.

            -Vou verificar se é boa mesmo – responde Zenor, com o ritual de sempre. Dá uma bicadinha, estala a língua no céu da boca, permanece alguns segundo com os olhos fechados em estado de êxtase, dá mais outra talagada e quando abre os olhos leva o maior susto de sua vida ao ver a garrafa na mão de Chico.

Cai desacordado e somente recobra os sentidos no pronto socorro, cercado de estudante de medicina. E ouve, sedado e sem forças, o diagnóstico do chefe da equipe médica.

            -Ingeriu Cachaça Raiz curtida numa jararaca esculpida em madeira  de sassafrás  e entrou em estado de choque.

 

         

 

Happy hour com o Dr. Antenor

Nada melhor do que um happy hour de dezembro, quando a turma se reúne no bar da esquina para aquela cervejinha de confraternização com direito a zoar o patrão que paga tudo.

O ambiente é tão descontraído que de repente, num estalar de dedos, o mala do patrão é disputado em selfies para a posteridade ao lado de seus funcionários, um por um.

“Uma gracinha!”, clica Lurdinha sacramentando a “amizade” dos colegas com o Dr. Antenor de seu celular de amigo oculto.

O clima é de festa, com todo mundo falando ao mesmo tempo, muita bagunça, risadas escandalosas, piadas picantes, uma zorra total. Tudo documentado em autoretratos e filmagens dos celulares.

 - E o Homero? Tirou o bigode, separou da mulher...a última vez que o vi estava com outra? – quer saber Heitor sobre o ex-colega de trabalho.

-Ah, o Homero...Tá chegando aí, gordo e sacana, do mesmo jeito. 

-.A Paula, da Farmácia, lembra?!

-Casou, cara, goostosaaaa!

Gilberto, o Beto, arregala o olho:

-Casou?! Logo a Paula...pô, cara, sacanagem. Quem é o felizardo?

-“Adivinhe???

-Não me diga que foi com o Arnaldo...

-Rubens, lembra dele? O Rubão, que jogava com a gente na quadra.

-Pô, cara, o infeliz é mais feio do que o meu salário e conseguiu pegar aquela fofura toda pra ele?

Dr Antenor, com o bigodão coberto de espuma de chope, nem percebe as vulgaridades da turma, agarrado no celular com a mulher xingando do outro lado da linha.

-Querida, é uma festinha de confraternização, estão aqui a Fátinha, o Charles, Betão...vem pra cá, traz meu carregador...

O que se ouve do outro lado da linha ninguém sabe, mas pela cara do Dr. Antenor...

-Vira, vira, vira! Vira, vira, vira! Viroou!!!

E lá se foi mais uma talagada de cachaça goela abaixo do patrão que não está nem aí para a bronca da mulher.

-É hoje! – ele grita, roçando a mão boba nas coxas grossas de Lurdinha. -É hoje que a cobra vai fumar! - Oh! Acabou a bateria...

-Quer o meu emprestado, doutor?

Biro-Biro se antecipa do outro lado da mesa:

-O meu celular ta carregado... toma!!!

O aparelho voa, desliza na mesa e cai no colo de Beto que liga para

um amigo, falando baixinho com a mão em concha:

-Cara, o chefe ta num porre...vem pra cá, tem até uísque.

Último a deixar a mesa, ao lado de Lurdinha, Dr. Antenor passou o cartão às 4h da madruga, tão bêbado que nem viu o valor da conta.

No dia seguinte a bicha do Fernandinho Bossa Nova invade a cantina de braços abertos e solta a voz, bem alto, para todo mundo ouvir:

-Geeente! Ligaram da casa do Dr. Antenor dizendo que a cereja maraschino do uísque, creeedo!, acho que é isso mesmo, fez mal. Ele foi atendido no Pronto Socorro, pelo menos é o que disse, e chegou agorinha em casa; tá bem, mas não vem hoje.

Os olhares se voltam todos para uma foto da faltosa Lurdinha na parede.

-Nossa! – dexa escapar Fatinha à amiga do lado, morrendo de inveja. –A Lurdinha, ela conseguiu!!!

Sitio do Vô Ferreirinha

O mecânico de elevadores Nicomedes tem uma família moralmente correta. Ele, a esposa Filomena e três filhos, mais a sogra Ritinha, com quem o casal viveu muitos anos até nascer o terceiro filho. Mas quando eles entram no carro para viajar, coitado de quem fica de fora.

Primeiro, os elogios.

-Pai, Tio Marcos falou com o senhor sobre a viagem de Aninha para os Estados Unidos? Vão ela e o Zinho – quis saber Julinho, ocaçula de 7 anos.

-Zinho, qual Zinho?

-O da farmácia, namorado da Aninha, o senhor não sabia?

-Ah, sei. Ótimo rapaz. Seu tio não me falou nada. Disse que ela ia tirar férias mas não falou onde.

-Aninha arrumou um bom partido, porque o rapaz é ótimo, trabalhador e direito – completou Filomena tapando o nariz com o lenço por causa da rinite. Ela não pode com poeira.

-Atchum!

-Fecha o vidro, Nicomedes, já comecei espirrar.

Pronto, foi a rinite de Filomena atacar e o veneno veio atrás.

-Aninha pode até ser uma boa menina, mas seu irmão é muito irresponsável. Deixar a filha viajar sozinha com um namorado que a gente não sabe nem quem é.

-Zinho é um cara de futuro, comprou a farmácia não tem um ano e vai até comprar outra, acho!

-Cê fala as coisas pelos cotovelos, Nicomendes. Quem disse que o rapaz é bom só porque entende de negócios?

-Rui era melhor –interveio Pedro, o mais velho.

Nicomendes ouve mais do que fala, atento aos buracos com a sua Veraneio C-10 comprada com a herança deixada pelo sogro que morreu ranzinza e, dizem, de tanta raiva  que passou com  Ritinha que não é fácil.

-Dirige direito, Nico, vai bater outra vez – ralha Ritinha, apontando para o genro o caminho certo. – Vai ser ruim de roda assim lá longe

Nico é o apelido dado pela sogra que ele detesta

O mecânico segue calado para o sítio da sogra ouvindo um sertanejo baixinho, enquanto a família fala mal dos outros. Não escapa ninguém.

-Ronaldo, marido da Claudete do salão de beleza arrumou uma amante, coisa ridícula, mamãe – conta Ritinha, de costas para o marido. – A rameira é mais feia que  Maria Sapatão, lembra dela? A megera do Posto de Saúde.

-Ah, mas a Claudete merece – dispara Ritinha esfregando o nariz. –Além de boba, não cuida do corpo. Viu como ela está gorda?

-Gooorda? Gorda tá a irmã de Nicomendes, Tita, virou uma baleia. Prefiro a morte a ficar daquele jeito. Credo! – bombardeia Filomena, roçando o dorso da mão no rosto de Nicomendes.

-Tadinho do meu marido...olha prá cá, bem, fica com raiva não porque a bruxa de sua irmã, Deus me perdoe, tá daquele jeito porque o Jorginho acabou com ela. Concorda, mamãe?

-Deus há de me perdoar, minha filha, mas se eu tivesse um marido igual aquele eu matava. Juro que matava. O bandido bebe igual um gambá, o dia todo, não tá nem ai para a família e a besta da Tita fica trancada em casa com os filhos, cuidando de tudo. Eu colocava ele no olho da rua.

O mecânico não se contém e solta os cachorros.

-Que nada, dona Ritinha, Ferreirinha fez a senhora de gato e sapato, até no dia da morte sacaneou a família. O sítio, por exemplo, já estava em nome dos outros, por pouco não perdeu tudo no jogo e com a mulherada.

-Fala mal de papai não, bem, porque se não fosse ele a gente estava sem carro, casa e o sítio. Mamãe tem razão em preservar a memória dele porque, bom ou mal, foi o que salvou a gente – defende Filomena.

Nicomendes quase sofre um enfarto.

-Não preciso de esmola de sogro. O velho era um filho da puta; sua mãe também tá aí dando uma de boazinha, mas desculpe, dona Ritinha, que Deus o tenha em bom lugar, mas Ferreirinha não era flor que se cheira.Era um vagabundo de marca maior e a a senhora vai atrás, cedo ou tarde, vai estar lá queimando essa língua no fogo do inferno.

Ritinha começa a chorar, Filomena tira o sapato e ameaça bater no marido, os filhos começam a gritar e a bagunça somente acaba na porta do “Sítio do Vô Ferreirinha ”.

Do lado da placa, o desenho de um cesto de lixo com o aviso:

“Deixe aqui as suas mazelas e seja feliz como o Ferreirinha”.

Um dobrado inesquecível

Dois aposentados conversam na praça de uma cidade pequena, em meio a um silêncio medonho. O ferroviário puxa o assunto:

-Dia tá quente hoje.

-Quente e triste – completa Bené, 78 anos.

O sapateiro Chico, 79 anos, olha para os lados e solta os gases.

-Agora ficou quente, triste e fedorento – resmunga Bené, palitando os dentes. – Cê não faz mais nada na vida além dessas porcarias?

-E você, faz o quê? Esqueceu daquele peido que você soltou na cara do bispo em 1975?

Realmente foi um feito histórico. Bené tocava bombardine na Banda Santa Cecília e Chico, trombone. Ambos sofriam de prisão de ventre e fizeram um acordo. Quando a cólica vinha bastava piscar o olho que o companheiro fazia a introdução para evitar a descompostura. O máximo que acontecia era um pito do maestro Zé da Clarinete pela queima da largada. Era dia de missa festiva, com a presença do bispo que seria recepcionado com seu dobrado preferido, o Apollo XI, em homenagem à nave do mesmo nome lançada em 1969. Ficaram três meses ensaiando o dobrado.

 -Vamos caprichar, igual o Azul Anil que está tinindo. Podemos até emendar. Tocamos o Apollo XI e depois o Azul Anil para impressionar. Conversado? –sugeriu o maestro.

Zé era apaixonado por esse dobrado porque começava com os clarinetes, instrumento que ele dominava como ninguém, por isso fez do Azul Anil o hino da banda. Mas como o bispo queria o Apollo XI...

-Vamos ensaiar outra vez – ordenou o maestro. E a banda deu aquele show.

No dia da festa, com tudo preparado no coreto da praça, chega o bispo acompanhado dos padres, prefeito, beatas e sacristãos, entre os quais, o filho de Zé da Clarinete. Antes do maestro levantar a batuta, veio a cólica. Bené amarelou e deu o sinal para Chico que inflou a bochecha,mas não soprou. O peido saiu solitário e alto, quase matando Zé da Clarinete de vergonha. Fedeu tanto que a banda desafinou.

Nunca mais o peidorreiro Chico tocou na apoteótica Sociedade Musical Santa Cecília. Teria sido excomungado pelo padre, não fossem os pedidos de clemência de Bené, o culpado de tudo, que também perdeu o posto.

Vô Albertinho

Vida de aposentado moderno é uma loucura. Antigamente, quando não existia computador, Vô Albertinho, antigo guarda-livros da Rede Ferroviária, dava aula de conhecimentos gerais para os mais novos, mas com o advento da internet acabou a mamata.

 -Quem ganhou,vô? – grita o neto, batendo a porta do banheiro.

-O Los Angeles Lakers. Humilhou o Detroit, 140 a 89.

-Tô falando do tênis, o Aberto dos Estados Unidos, foi hoje...

Pronto, o jogo foi às 8h, quando Albertino saiu para passear com o cachorro.

-Não sei. Sua vó pediu para levar o Ted para fazer xixi e perdi o jogo.

 Vô Abel, como é chamado pelos netos e no campo de golfe – onde tenta aprender as regras desse jogo para enturmar com o novo namorado de uma neta –, virou escravo do computador para acompanhar a juventude e não virar peça de museu em casa.

-Vô, viu o que disse Aninha no twiter?

-Não. O que?

-Ah, Vô Abel, ta brincando comigo. Pelo visto o senhor nem abriu o computador hoje.

A critica é do neto caçula de 8 anos, o Vitinho, que de tanto ficar na frente do computador teve problema de vista agravado (é estrábico) e usa um óculos fundo de garrafa tipo John Lenon.

-Vô, a Aninha disse que sonhou com aquele cara do Big Brother...ah, esqueci o nome dele.

A rotina de Albertino é a mesma todo dia. Abre a internet cedinho, lê o noticiário dos principais jornais do País, dá bom-dia para os netos, pelo WhatsSapp, vai à padaria, dá bom-dia para a moça do caixa, caminha até o balcão, pede café, adoçante, uma rosca, paga a conta e arrasta o chinelo até o apartamento. Fuça a cozinha, faz a maior sujeira, volta para o computador, que deixou ligado, e dispara a consultar o Google. A pesquisa tem como objetivo mantê-lo atualizado sobre o mundo jovem. Não basta, por exemplo, saber o nome dos cantores preferidos da meninada. É preciso pesquisar sobre alguns trechos em inglês do hit pop, o nome das namoradas e namorados dos ídolos dos netos, gírias, os you tubes mais vistos e até marcas de bonés da onda.

 A moda agora é o boné Nike Barcelona que o pai de um dos netinhos comprou para o filho juntamente com uma viseira da mesma marca para ele jogar tênis. Robert, o quarto filho de Albertino, é fissurado em tênis e exige que o pobre de seu pai saiba tudo sobre o jogo para tentar convencer Julinho, seu filho único, a trocar o futebol pela raquete.

-Não dá, Robert – insiste Albertinho com o filho –, Julinho gosta tanto de futebol que sabe a escalação de todos os times grandes da Europa, tive que decorar tudo para entreter o menino, agora você quer que eu decore também esse troço de ficar olhando para um lado e para o outro, sem graça alguma?

-Claro, pai, tênis é mais sofisticado, apura o reflexo, o senhor viu aquela jogada do sérvio Novak Djokovic, ontem?

-Quem???

-Djokovic, não acredito que o senhor perdeu o jogo...

-Ah, sim, vi – desconversou Albertino, desculpando-se por ter esquecido o remédio do coração no quarto.

-Volto já.

Na verdade, a desculpa de Albertinho foi para fazer uma pesquisa escondida no computador sobre a vida desse tenista que ele nunca ouvira falar antes.

“Arrrrrrrrrrr! Djokovic, porque não Guga, sei tudo do Guga” – resmungou o velho  baixinho, apressado pelo filho no andar de baixo:

-Pai, o Juninho ta perguntando quanto ficou o Aberto da Australia; parece que Djokovic detonou o espanhol Rafael Nadal,3 sets a 0, o senhor viu?!

-Arrrrrrrrrrrrrrrrr!

 

 

       Coitado do Urinoldino

       Como acontece todo ano, o Natal na casa de Urinoldino e Juju começa dia 24 e vai até a virada do ano, com muita festa e a algazarra das crianças com aqueles brinquedos eletrônicos coloridos e barulhentos ligados dia e noite. Uroldino é só alegria.

            -Ho-ho-ho, Papai Noel chegou! – brinca Urinoldino com um dos netos preferidos.

            -Vô, veja o que ganhei? – apressa a netinha Ryana, mostrando o tablet da Barbie para fazer inveja na priminha que lhe atira o laptop e as duas começam a chorar ao mesmo tempo.

            Juju corre em socorro das meninas que acusam o pobre do Urinoldino de ter provocado a briga.

            -Vovó não quer briga – pede Dona Juju, uma senhora de bons modos que nunca levou queda para cuidar de crianças. Quando era professora, 30 anos atrás, tinha fama de ser severa demais com os alunos do colégio e por isso nunca conseguiu um bom cargo. Aposentou-se com uma miséria de salário e todo ano, no Natal, se estressa com o marido que, ao contrário dela, adora dar brinquedo para os netinhos quebrar.

            -Se deixar, você põe tudo a perder – é o que  Juju sempre diz ao marido à véspera do Natal. –Você não tem juízo, então tem que fiscalizar tudo, igual criança.

            A ranzinza da Juju tem razão, pelo menos em parte. Com duas aposentadorias gordas, uma do INSS e outra do Estado, o engenheiro Urinoldino Furtado nunca foi de juntar dinheiro.  Construiu uma boa casa, tem um carro popular, um barco e uma cota de um clube náutico. Mais nada. O que sobra da despesa do mês fica com a Cascavel, como ele chama a mulher, que cuida de tudo. Mas no Natal vem a derrama, não tem jeito. Juju fica encabulada onde ele arruma tanto dinheiro para gastar com os netos.

            -Em 1992 – conta ela a uma amiga, em meio à bagunça dos netos –Urinoldino estourou o limite dos  três cartões de crédito, acabou com o 13º e a sobra do mês, deixando um buraco no nosso orçamento.

            -Nossa! É muita falta de juízo, dona Juju. Deve ter sido muito triste para a senhora – comenta a sirigaita da Filomena, colocando ainda mais lenha na fogueira.

            -Dinheiro, Filó, que dava para comprar outra casa  – responde Juju, com o dedo indicador no nariz.

            Filó é o tipo da mulher que multiplica tudo que ouve por 10 ou mais. Portanto, a fama de homem rico de Urinoldino já estava decretada. Aliás, já diziam as más línguas que ele torrou tempos atrás meio milhão de reais não se sabe em quê.

            -Vó, veja o que Vovô me deu? – festeja um dos netos que mal sabe ler e já tem celular de última geração. –Sabe o que ele falou que vai me dar quando crescer? Um daqueles de grife que dá dicas de vinho e até de boates vip.

            Aliás, as extravagâncias de Urinoldino já ultrapassaram fronteiras. Um amigo seu de longas datas e do outro lado do País suspeita que ele está  passando a perna na mulher.

            -Tem treta nesse negócio, só pode, onde já se viu um aposentado que ganha um pouco mais do que eu gastar tanto assim? Falam por aí que ele deu para os netos da Margarida, a filha caçula, uma viagem à Disney. Eu mal agüento pagar o colégio de meu neto – resmunga Raimundinho, que começou a vida como caixeiro viajante, virou representante comercial e hoje é chamado de promoter.

            Enquanto isso, na casa de Vô Urinoldino, chega a hora mais esperada: a de distribuição dos presentes para os adultos, porque a meninada já recebeu o seu e é tradição da família promover o Papai Noel invertido no dia seguinte ao do Natal. Tia Nenê, irmã de Juju, passa o saco e a garotada joga dentro os seus presentes para os marmanjos.  Vale tudo. Até objeto usado. Importante é fuçar os guardados dos pais, tios, avós e amigos e jogar tudo no saco.

            Os presentes são retirados do saco, um a um, sob o apitaço da platéia que exige a abertura do embrulho na hora para a leitura do cartão pelo cerimonial, feito por Dona Rosalina, uma beata metida a moralista que, de santa não tem nada. Mas ela faz isso há mais de 20 anos.

            -Deixa eu ver – vai falando Rosalina, enquanto caça o presente no fundo do saco – Agora é a vez de – imaginem! – Urinoooldino!. E olha que não é coisa grande – ela observa, mostrando o embrulho para o aposentado que não para com o seu “ho, ho, ho, agora é a vez do Papai Noel Urinô!”.

            Primeiro, o cartão. Rosalina lê bem alto:

            “A você, meu amor, minha eterna paixão, um book de nossa viagem a Fortaleza – lembranças de 1999.  A sua inesquecível Esther”.

            A platéia foi à loucura – as crianças, naturalmente. Dona Rosalina, que não entendeu nada daquilo, caçou mas não achou mais o casal anfitrião. O pau comeu nos fundos da casa.

                        Esther é a viúva endinheirada do quarteirão de cima que puxava a ladainha durante a via-sacra do mês de Maio, e numa dessas visitas acabou sendo fisgada pelo festeiro safado.

            Casamento desfeito no Natal de 2001, Urinoldino nunca mais foi o mesmo. Passa o dia no seu quartinho de fundo cedido por um dos filhos tentando decifrar como as fotos de sua lua de mel  clandestina com Esther foi parar nas mãos dos netos.

 

 

Copiou,brother.

O perito chega ao local do crime. Faz um risco em volta do cadáver, fotografa, examina os ferimentos, seus bolsos, colhe objetos em volta, tira mais uma sessão de fotos com a sua Nicon digital e manda os curiosos se afastarem do local. Toma distância do corpo, faz mais fotos, chama um militar, fala ao seu ouvido e pula o corpo novamente, fotografa-o de outro ângulo e segue os respingos de sangue que vão até a porta de um barraco. Fotografa tudo e volta a falar no ouvido do militar que chama os seus colegas e arrombam a porta.

Os curiosos acompanham a cena silenciosamente.  O barraco, de três cômodos, está vazio. Uma panela na trempe do fogão a gás chama a atenção do perito que fotografa a vasilha, o fogão, os cômodos, a cama desarrumada, puxa um pinico cheio de merda e fotografa-o de vários ângulos, chama o militar, fala ao seu ouvido, e volta a fotografar.

Chega uma viatura da Polícia Civil – a mesma que estivera no local antes da chegada do perito – e descem quatro homens que seguem em direção ao perito. Um deles fala ao seu ouvido, ouve alguma coisa, volta ao carro, busca umafaca, mostra ao perito.

-É igual?

O perito examina a arma, tira uma trena, mede, franze a testa e coloca a faca num invólucro. Chama o mesmo PM de antes, fala alguma coisa, volta para o barraco e rebusca tudo: gavetas, armários e colchões. Sobe numa escada, espia debaixo da telha de zinco, desce, olha debaixo da pia da cozinha, chutauma caixa de papelão, fotografa tudo, pega um documento, examina, chama o PM, fala alguma coisa ao seu ouvido, chama os investigadores, pede alguma coisa, volta ao barraco e continua fotografando.

O PM vai à viatura, pede uma informação à Central, volta e cochicha de novo com o perito. Os policiais formam um bolo e trocam ideias. Um dos soldados pega uma prancheta, começa a escrever, vai até um investigador, fala alguma coisa, chama um homem, faz perguntas, volta para a viatura e faz novos pedidos de informações à Central.

O bolo de curiosos aumenta, sob um calor de quase 40 graus e ninguém fala nada. Já são três horas desse vai-e-vem e o perito continua fotografando, anotando, examinando objetos. Os suorescorre-lhe as têmporas e molha as  anotações. Ele enxuga o rosto com o dorso da mão direita, troca as luvas ensangüentadas, deixaa máquina fotográfica sobre a janela do barraco, entra, volta, chama o mesmo PM, fala alguma coisa e volta para dentro do imóvel com a máquina.

Chega o delegado, a polícia abre um corredor na multidão para a sua passagem, ele vai ao perito, conversa, pergunta alguma coisa e contrai o semblante, surpreso:

-48 facadas?

-58?

-58??? – espanta-se o policial.

-Fora os ferimentos leves – responde o expert.

O delegado pega o celular, liga, dá as informações ao seu chefe, volta para o carro e vai embora.

O perito volta ao corpo, já coberto lona preta, descobre-o, fotografa-o novamente, detalhes por detalhes, conta os ferimentos, um por um, risca o papel e faz uma nova anotação. Chama o PM e retifica:

-59, achei outro nas nádegas.

-Tudo a faca?

-Faca, tiro, paulada, espetada. Tem de tudo.

-Começou no barraco?

O perito levanta os ombros em sinal de dúvida.

Umcurioso ouve o diálogo e fala alto, com a mão em concha:

-Marcão.

-Quem éMarcão? –quis saber um soldado.

-O dono do barraco.

-Como ele é?

-Maneta – responde uma mulher levantando a mão no meio da multidão. Ela logo tem a informação confirmada com sinal de positivo por vários outros populares ao redor.

-Então não é ele. Se não tinha mão, como pode ser ele? – fala sozinho o perito, gesticulando.

-Cadê esse tal de Marcão? – indagou o chefe da guarnição.

-Pessoal do abrigo levou ele para dar um banho.

Os policiais se reúnem ao lado do corpo, trocam ideias, chamam mais uma pessoa, conversam, fazem sinal de negativo e autorizam o rabecão a remover o corpo.

O ronco dos carros com as sirenes ligadas dispersa a multidão e a caravana de viaturas deixa o local levantando poeira e cantando pneu. Um silêncio medonho toma conta do ambiente da tragédia, já no final do dia, depois de quase oito horas de confusão. Já noite, chega um homem negro de porte físico avantajado, parecendo jogador de basquete americano e pergunta à única pessoa que permanece de cócoras próximo ao local onde o corpo foi encontrado.

Ele solta o vozeirão atroador:

-Tá limpo?

-Sem sujeira.

Marcão, o dono do barraco, um valentão temido pela habilidade com a faca e o chuço, entra, examina a bagunça que a polícia fez no seu imóvel, balança a cabeça em sinal de reprovação, volta-se para o homem de cócoras e mostra-lhes as mãos.

-Cumé que é?

-Maneta!

-Maneta é...

-May brother, saradão, mora aqui, ó, no coração!

- Copiou,brother.

E foi dormir em paz.

 

Sete Palmos

Os amigos Juvenal e Sete Palmos vivem brigando, mas não vivem um sem o outro.

-Cê vai ao centro, outra vez? – pergunta Juvenal de olho na nova embocadura do alfaiate aposentado que ganhou este apelido mórbido pelo cigarro e a cachaça que não o mataram por sorte.

-Vou, e daí?

-Nada. Achei que depois de sua nora gastar uma fortuna com essa dentadura você ia pelo menos guardar a “perereca” quando fosse ao centro.

-Ah, tenha a paciência, onde já se viu ladrão de dentadura ...a minha é prótese dentária de porcelana fixa, entendeu, não tem como tirar – explica Sete Palmos, falando entre os dentes.

-É den-ta-du-ra e fica horrorosa na sua boca.

Sete Palmo abre o sorriso mostrando o par de dentaduras que ganhou da nora dentista, novinha em folha.

- Quanto custou?

-R$ 3 mil.

-O par?!

-Não, jumento, os dentes de baixo são originais – disparou Sete Palmo, já nervoso com a ironia do amigo. – Claro que é o par.

-É muito dinheiro para uma encomenda fúnebre. Só falta o CEP de sua casa para a morte te levar de Sedex 10.

-Morto ta ôcê, filho da puta, com essa mão boba que uma hora vai te levar chumbado para debaixo da terra.

Juvenal cala-se por alguns instantes, refletindo sobre a sua estranha doença da “mão estranha” que vive passeando pelas bundas das mulheres e copos alheios, fora outras escapadas do glossário policialesco.

-Meu problema é científico, já provado pelos médicos que é uma síndrome, não é igual a sua cachaça que não tem cura.

-Ah, “dr. Drauzio Varella”, agora safadeza virou doença?

Desta vez o pau comeu no meio da rua, com chutes, puxão de cabelo, palavrões e o apavoramento da vizinhança que chamou a radiopatrulha dando uma versão esquisita para o fato.

No dia seguinte, os jornais anunciavam em letras garrafais:

“Mão Leve tenta roubar dentadura nova de Boca Rica e os dois vão parar na delegacia”.

Cintura de Tanquinho

O Baile Funk da Vila Caveirão faz o maior sucesso nos finais de semana, quando a patota se reúne na  porta da Boate P 44, também conhecida como Cemitério da Vila.

A sobrevivente Tatá Cintura de Tanquinho recebe os amigos na porta.

-E aí, cachorra, já aparou a rabiola? – pergunta ela à amiga, com o cumprimento de praxe.

-Que nada, só deu arroz na parada...

-Viu o Renê?

-Ah, sim, puro caó, véi, não rolou nada. É outro bifão.

-E tu?

-No bonde, bolada como sempre.

Chega outra turma e o papo continua pra lá de esquisito.

- Tá numa beca maneira, hein? – certifica Tigrão ao amigo Popó, recém saído da prisão.

- Caozeiro, uau! – devolve a pergunta Popó, girando o corpo no calcanhar.

O buzú chega e descarrega mais uma dúzia da galera. Para quem não sabe, caozeiro é mentiroso, bonde é turma da mesma comunidade, rabiola é sexo, arroz é cara manso demais para o gosto da mulherada, bifão, idem, e por aí vai. Para gente careta, como o casal Fofão e Lili Linguaruda, que observa tudo da porta, isso é papo do capeta.

-Cruzcredo. É cada figura... – benze-se Lili Linguaruda, dividindo a soleira com o gorducho do Fofão que na juventude era chamado de Fofinho, mas agora...

-Cê ta gordo, hein? – critica a mulher, fazendo pilheria da feiúra do maridão com seu bigode untado a cuspe e  cara de bonachão sem pescoço. Lili também não é lá essas coisas. Depois que perdeu o emprego e a depressão que durou quase 10 anos, virou um bagaço.

O movimento em frente à boate aumenta e a babilônia promete outra noite de muita confusão.

- Marcaí, camarada, que vou de leve nessa.

- Demorô!

- Chapa quente, Quica?

- Vou incorporar hoje, grada dessa? – quis saber Zulú, apontando para a sua própria vestimenta.

-Manera, véi – comemora a mina, devorando o cigarro.

-Vou passar o cerol hoje – vangloria-se Ricco, o Bonitão da Vila. Tem fama de varão, mas o rompante já lhe custou uns 20 BOs, fora os acertos caseiros que ninguém toma conhecimento. Bate muito, mas apanha também.

-Muquirana vem aí – anuncia a sua ex-namorada, erguendo o queixo para demonstrar poder.

-Poderosaaaa!

-Gostosa e poderosa – ela corrige, balançando o corpo com o dedo em riste, pronta para o ataque. –Tigrão vem aí – ameaça, exibindo o pisante da hora.

Tigrão e Ricco fecharam a boate recentemente, após uma briga que terminou no pronto-socorro. É pura guerra. Eles se aproximam um do outro, balançando o corpo num gesto característico de quem quer briga. A galera faz a roda e começa a bater palma espaçadamente. O pancadão é desligado e as palmas aceleram em ritmo crescente. Apaixonado pelas lutas marciais, o gorducho do Fofão arregala os olhos ávidos por ver as voadoras arrancando pedaços.

-Quero ver o cérebro voando – atiça Fofão da janela, sob os olhares espantados de sua mulher.

-Cê é doido mesmo, hein? Até parece que entende alguma coisa disso –provoca  Lili, fazendo beicinho.

-Kung fu, jiu jitsu, luta de rua, vale tudo, dedo no olho, telefone, gosto de ver o sangue se esvaindo, morô? Vixe, começou a responsa, ta ligada? Arrrrrrrrrrrr – berra o gorducho, se contorcendo todo.

-Nossa!  Coitado do mernorzinho, ta sangrando – grita a mulher.

-Maaata! Faz igual o bando do Brooklyn, arranca o pescoço...

-Mata o que, homem, ta possuído???

-Maaata! Olha lá, ui, dali Tigrão! – berra Fofão, torcendo pra quem está batendo mais.

 A vizinhança vai à loucura com as estripulias do vizinho maluco que nem viu a polícia recolhendo o que sobrou dos ídolos Tigrão e Ricco. Ele se contorce todo com os olhos fechados, em total êxtase, quando o soldado grita nos seus ouvidos:

-Coiote presepeiro...paaara com essa viadagem! – berra o PM, um negão de 1.90cm e 120 quilos.

Fofão solta o grito inconsciente:

-Tigraaãooooo?!?!

 

Fred e o Kone

Dá licença...

-Pra quê?

-Pra passar, seu idiota.

-Não posso.

-Não pode o quê. Tá no meio do caminho...

-Acontece que eu não consigo sair do lugar. Sou um Kone.

-O senhor  quer dizer Fred.

-Isso mesmo. Sou o Fred, lembra  dele?

-Claro. E como!

-Pois é. Agora virei gozação.  Antes eu era apenas um Kone.

-A vida é assim mesmo.

-Assim, não. Piorou muito. Antes eu marcava lugar, tinha valor...

-Agora é nome de jogador de futebol.

-Fred era bom?

-Mais ou menos, até que resolver ser um Kone.

-Peraí,  não me compare com qualquer um. Eu marco mesmo!

-Gol?

-Não, cara, lugar. Sou especialista. Conhecido no mundo inteiro. Ninguém vive sem a minha presença.

-Fred também marca a área como ninguém. Fica lá, parado, o tempo todo assim. Não sai nem no chutão.

-Gozação, cara. Eu marco é qualquer lugar e em qualquer país e para qualquer um.

-Fala uma marcação famosa...

-Marquei lugar para o Edie Murphy, Tom Cruise, Dustin Hoffman, um punhado de atores famosos. Ah, marquei lugar uma vez para a princesa Diana e também para dois presidentes dos Estados Unidos.  O carro de um deles até esbarrou no meu pé.

-Ah, é? Fred marcou Bedimo.

-Que isso???

-zagueiro da Seleção de Camarões.

-Nossa! Conseguiu ficar parado com esse perna de pau camaronês? É bom mesmo! Paradão, paradão?!

-Não deu um passo.

-Nem unzinho?

-Paradão, igual poste.

-Marcou também  Manuel Neuer, aquele goleraço que joga adiantado?

-Marcou. Não deu um passo.

-Caramba...

 

 


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