RETRATOS DE UMA VIDA

 

Nota do Autor

 

            Este modesto resumo da história de nossa família foi escrito para servir de exemplo às futuras gerações. Evitei dramatizar os fatos além do extremamente necessário, mas não foi possível omitir o sofrimento de nossos pais para criar os filhos com dignidade. Como dizia papai, a vida é feita de muito sacrifício e somente com trabalho honesto, fé em Deus e devoção pelos pais, será possível construir uma família  honrada. Esta é a herança maravilhosa que recebemos deles e que tentamos dividir com todos vocês, através deste relato feito na segunda pessoa sobre a incrivel história de vida de Zezé e Olga.

                               José Cleves (3º dos 11 filhos de Zezé e Olga)

 
 
 

"Uma família sem história para contar é uma família sem memória"

 

 
 


 
 
 

O casamento, em 1945

 
 
 
 
 

    O sol trincava na fazenda Bom Jardim, a uma légua do arraial de São Miguel do Anta, perto de Viçosa-MG,  quando o pequeno José Paulo da Silva, o Zezé, urrava no cabo de uma enxada  maior do que ele. Zezé solitário na roça e o mundo fervilhando. Era final dos anos 30, de boas e más notícias.   

    Os Estados Unidos se recuperavam da depressão de 1929, com a queda drástica das bolsas de valores. Já Hollywood exibia Greta Garbo e a Alemanha estremecia o mundo com o surgimento do nazismo de Hitler.

    As emissoras de rádio do Brasil só falavam na decadência da política do café com leite – comandada até o início daquela década pelas oligarquias paulistas e mineiras, com apoio dos setores agrários de outros estados –,e do  Estado Novo de Getúlio Vargas, que estava começando.

    O Governo de Artur Bernardes, filho de Viçosa,  já havia passado. E com ele, todo o falatório sobre as comentadas cartas de Bernardes a Raul Soares, no Governo de Epitácio  Pessoa.

    Também o movimento das forças públicas  na região durante o Governo Bernardes  havia cessado. Os bernardistas do Partido Republicano (PR), entre os quais Pedro Paulo da Silva, dono da fazenda e pai de Zezé, já não eram  mais perseguidos como antes.

    Zé Camilo, capataz da fazenda, contava que o fazendeiro Pedro da Silva apanhou muito da tropa no milharal, mas Pedro proibiu o agregado a espalhar a notícia, dizendo que era tudo mentira. De vez em quando, o assunto corria à boca-pequena na lavoura, mas Zezé, como filho obediente e puxa-saco do pai, contestava a humilhação, invocando o nome da mãe, Inês, como testemunha de que isso não aconteceu.

   Zezé foi crescendo na labuta e coisas novas surgindo. A Rádio Nacional tocava Chão de Estrelas e Carinhoso, os grandes sucessos do momento, mas disso Zezé pouco sabia, porque não lhe restava tempo para o entretenimento.    Ele e mais meia dúzia de companheiros ralavam diariamente no campo, roçando o terreno para a plantação de feijão e milho.

    O pai, homem enérgico e de princípios conservadores, tinha mais seis filhos: Joãozinho, Nair, Zé Nico, Vevê , Hilda e Maria. Muitos anos depois, surgiu Luiz Antônio, filho de Zé Nico, adotado pelo avô já no seu segundo casamento com Arminda.

    Nair, muito doente, não aguentava serviço pesado (faleceu ainda muito jovem). Zé Nico, caçula dos homens, tinha também dificuldades para o trabalho duro no campo. Vevê era doente da cabeça. Hilda ajudava a mãe Inês no que podia e Joãozinho foi morar com um tio.

   

Passeando de carro de boi

    

    Sobrou para Zezé a árdua tarefa de comandar os trabalhadores, puxando a fila que era para dar exemplo. Não foi fácil. Mal o dia amanhecia, o cheiro gostoso do café moído na hora por Inês se espalhava pelos cômodos do casarão com parede em adobe e portais de madeira envelhecida.

    Enquanto o menino degustava o biscoito polvilho com café de rapadura, Pedro sintonizava o aparelho Philips na  Rádio Sociedade de Juiz de Fora, para ouvir a hora. Escutava uma ou outra música, e desligava, que era para não dar mau exemplo.

    Pedro somente religava o rádio às 18h, para ouvir A Hora do Fazendeiro, da Rádio Inconfidência, com apresentação de João Anatólio Lima, cujo filho, Jairo Anatólio Lima, veio a ser, anos depois, colega de trabalho de Cleves, 3º dos 11 filhos de Zezé.

    Quando era mais novo, 8 a 10 anos, Zezé gostava de andar de carro de boi. Tinha um carreiro na fazenda muito caprichoso que lhe dava carona no retorno da carga de milho, já no final do dia.

    Era um carro especial, de boa madeira, cheda de peroba rosa e cabeçalho feito de uma peça inteiriça de guarabu. Os cocões e o eixo eram de aroeira. Zezé não esquecia os detalhes, porque ajudava o carreiro a untar os eixos com óleo de mamona misturado com carvão.

    

    Zezé andava de costas, assentado no assoalho, apreciando a paisagem que ia ficando para trás. Gritava que só vendo, aos solavancos. Era muito divertido, contava.   

 “O carro cantava bonito no alto do pasto e o cheiro quente da aroeira era gostoso, coisa muito especial”, contou Zezé, já velho e nostálgico, a Cleves, que adorava ouvir os seus casos.

    Mas era só o que Zezé gostava quando era pequeno. Assim que virou adolescente, o bicho pegou para o seu lado na fazenda.

    Ainda com o dia escuro, Zezé reunia os trabalhadores para distribuir as tarefas. O pai ausentava-se muito da fazenda. Ora para tratar de negócios, como a venda de cachaça (falava-se que ele chegou a exportar cachaça sem selo durante o Governo de Bernardes (1922-1926), ora para descansar a cabeça.

    A verdade é que o fazendeiro gostava de um rabo de saia. Zezé sabia disso e talvez, por essa razão, ficava mais próximo da mãe Inês, que vivia doente. Era doença do peito, diziam. Sua preocupação maior era com Vevê, o filho que tinha problemas de cabeça. Não era agressivo, mas dava trabalho, porque não tinha juízo nenhum.

    Zezé cresceu  como um zumbi: era visto em todos os lugares da fazenda. No engenho de cachaça, no curral, no chiqueiro, na lavoura de café ou na plantação de feijão e milho. Perambulava também pelos  pastos e baixadas, verificando como estava a plantação de arroz.

    Diversão, nenhuma! Nenhuma mesmo! De vez em quando ele montava cavalo e ia até o distrito de São Miguel do Anta ver as moças, mas não bebia e nem gostava de farras. Era mesmo para apreciar as donzelas recatadas do lugar.

    Uma pequena ressalva: Zezé bebia sim, muito pouco, quase nada. Tomava meia garrafa de cerveja preta Antártica  e enfiava o resto goela abaixo de seu cavalo, pura farra para ver o animal relinchar.

O namoro

    Numa dessas andanças conheceu Olga. Uma jovem de pele alva, traços finos, muito bonita. Filha do conhecido comerciante Nico Milagres e Ernestina. Olga tinha um punhado de irmãos. Era prendada. Gostava de bordados. Nico era dono da tradicional Padaria Santa Cruz. Não abria mão de um cigarro de palha, de preferência com fumo de Ubá, naquela época famosa pela sua lavoura de fumo.

    Nos dias de festas, ou de viagem (gostava de passear), Antônio Rodrigues Milagres, o Nico, levava o seu relógio de bolso ômega, o isqueiro modelo alemão vospic e o  chapéu de feltro novo, tirado da caixa. Se a viagem era de trem, colocava sobre o terno caqui, bege ou marrom, um guarda-pó branco.

    Ernestina não fazia muita questão de roupas. Viajava o tempo todo de cachecol e um lenço preso ao nariz com a mão, temendo alguma doença respiratória.  A precaução vinha do trauma de ter perdido o filho Antônio, de 21 anos, por complicações pulmonares.

    Olga nasceu pouco antes da morte do irmão que, entusiasmado com aquela menina bonita, pediu à mãe para batizá-la com esse nome, em homenagem a uma miss. Zezé logo apaixonou-se pela menina-moça com os seus 16 anos. Namoro para casamento.

    Os pombinhos se encontravam na casa de Olga, vigiados pelos pais delas que não gostavam de assanhamento. Podia pegar na mão e pronto. Ernestina fazia sala, sempre elogiando a filha, enquanto Nico, amigo de Pedro, passava na frente do casal de vez em quando,  olhando o futuro genro de soslaio.  Aquela lambida de olho que é para o caboclo não esquecer que a moça tinha pai bravo.

    Ao saber das pretensões do filho de casar, Pedro fez cara de poucos amigos. Afinal, Zezé era o pé-de-boi da fazenda. Cedo ou tarde isso iria acontecer e o fazendeiro teve essa compreensão. Marcado o casamento na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em São Miguel, foi aquela correria.

    O padre Adalberto já preparava a igreja para o matrimônio, quando Zezé, pés descalços e atarefado, candiava boi a uma légua da igreja, preocupado com o eixo do carro porque, com a carga pesada, o chumarro encosta na cheda e come o fueiro. Um prejuízo danado. Coisa que era obrigação do carreiro vigiar, mas a responsabilidade por um eventual prejuízo era de Zezé, o filho do dono.

    Por isso o rapaz não sabia se olhava para frente ou para o carreiro no cabeçalho da carga de milho, se contorcendo todo entre os bois para o carro não tombar em meios a cupins, pedras e tocos de pau. De vez enquanto Zezé levava uma chifrada do boi de guia.

    Com a cabeça no mundo da lua – só pensava em Olga – o pobre Zezé suava frio sob o sol escaldante. A hora ia passando, passando, e os bois molengando, molengando, até que o carro chegou ao paiol da fazenda para descarregar.

    Zezé correu que nem um corisco para a fazenda, onde a sua mãe já o aguardava, aflita, com a vestimenta do casamento. Sapatos novos, terno de casimira inglês.

    Naquela época usava muito ternos de casimira escuro ou linho branco. O do noivo era de casimira azul, confeccionado sob encomenda na alfaiataria da cidade. Bom, mas se Zezé ostentaria um fino terno e um perfume sedutor (palavras da noiva), Olga não deixava por menos: estava exuberante com o vestido de crepe branco, confeccionado  por dona Nadir Saraiva.

    A emoção era tanta que Olga mal dormia. Um dia antes, ela pegou no sono ao som imaginário de sua música preferida, Em Você, de Athaulfo Alves (1936).

O casamento

    Casaram-se no dia 12 de setembro de 1945, às 16h, no Civil, e às 16h30, no religioso. Mesmo ainda muito jovens, ela com 16 e ele com 21, juntaram as trouxas até que a morte os separasse.

    Foi o que os noivos disseram ao padre com o propósito de cumprir as juras de um amor eterno. Nico Milagres e Ernestina puxavam a fila dos cumprimentos. Ele com o inseparável chapéu de feltro e terno de brim engomado, satisfeito por ver a filha casada com um homem honesto e trabalhador.

    A mãe Ernestina, uma mestiça miúda e valente, chorava baixinho, não se sabe se era de felicidade, por ver a filha se encaminhando na vida, ou de tristeza, por vê-la longe de casa. Pedro, Inês e a filharada formavam, com os parentes de Olga, a fila indiana no corredor da antiga Matriz do largo que mais tarde teve o nome do celebrante: Praça Padre Adalberto.

    Os noivos foram para a roça morar em terrenos da fazenda de Pedro da Silva, a convite do fazendeiro, e depois se mudaram para uma casa na localidade de Buraco de Areia, naquela mesma propriedade.

    Foi ali, naquele pedacinho de chão, que esse casal de jovens começou a construir a sua linda família, hoje com 11 filhos (10 vivos), 22 netos e 12 bisnetos, fora os parentes por afetividade, alguns quase filhos, outros que já viraram gente da família, mas todos discípulos de Zezé e Olga.

    Zezé faleceu em 2004, aos 81 anos, e Olga completou em julho 86 anos, lúcida, maravilhosa, sempre nos dando o prazer de sua benção.

 

A enxada pelo fuzil

 

    Antes do casamento, Zezé até que arrumou um jeito de tentar escapar do trabalho duro da roça. Assim que fez 18 anos, em 1942, pediu ao tenente Cuíca, um parente que servia em Juiz de Fora, para arrumar um jeito dele ser convocado pelo Exército. Assim, ficaria livre da roça.

    Era comum naquela época filhos de fazendeiros fazerem isso para escapar das severidades do campo. Pobre Zezé: fugiu do mato e caiu na moita. Logo após a formalização do pedido, veio a notícia de que o Brasil se juntaria à Força Aliada para combater as tropas alemãs que avançavam perigosamente em direção da Itália fascista.

    Enfiado no mato, Zezé nem sabia direito o que estava acontecendo no mundo, muito menos na Alemanha nazista. Até porque, o Governo brasileiro estava neutro nessa questão, quando ele se alistou imaginando ser um grande negócio trocar o serviço pesado da roça pela farda verde-oliva do Exército Brasileiro.

    A  ideia de se criar uma força militar para participar do conflito surgiu em fevereiro de 1943, no encontro dos presidentes dos Estados Unidos e do Brasil, Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas, na cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

    Na ocasião, Getúlio argumentou que o envio de tropas dependeria exclusivamente do reaparelhamento bélico das Forças Armadas Brasileiras. No início de março, Vargas aprovou proposta do ministro da Guerra, general Eurico Dutra, sugerindo a criação da  Força Expedicionária Brasileira (FEB), mas condicionando-a ao recebimento do material bélico necessário inclusive para as tropas que garantiriam a defesa do território brasileiro.

    A chefia da FEB foi entregue ao general João Batista Mascarenhas de Mor. A proposta concretizou-se em 9 de agosto, através da Portaria Ministerial nº 4744, que criou a Força Expedicionária Brasileira, formada pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) e órgãos não-divisionários.

    Zezé foi convocado para serviço o Exército aos 19 anos numa lista pregada na unidade do Exército, em Juiz de Fora.

    Os soldados a serem escolhidos para embarcar  rumo à Itália deveriam, conforme as instruções, seguir para a 1ª Divisão de Infantaria no Rio de Janeiro.

    O boato era de que os convocados passariam por um processo de aclimatação, para suportar temperaturas inferiores a 20 graus no inverno europeu.

    Zezé sentou-se na cama patente do dormitório do Regimento de Infantaria e retirou do bolso vários comprimidos que tomava por conta da hoje conhecida “doença do pânico”, fruto do trauma de infância, da opressão que sofria na fazenda. 

    Chegou um oficial e tomou-lhe os remédios. Havia no Exército uma prevenção contra recrutas que, segundo uma nota do alto comando, “caçavam desculpas para não servir a Pátria, temendo os horrores da guerra”. Portanto, as eventuais queixas deveriam ser ignoradas, em nome da causa maior.

    Zezé argumentou que não poderia ficar sem os remédios, porque sofria de nervos e tremia muito. Começou a contar as suas agruras e o oficial, impaciente, interrompeu-o com o argumento de que soldado não pode adoecer na guerra.

    “Mas eu tenho problemas de nervos”, foi dizendo o jovem recruta, tremendo que nem vara verde. Foi parar numa junta médica que determinou a sua internação no Hospital Militar do Rio de Janeiro. A princípio, por simulação de loucura. Depois, para tratamento de doença neurológica.

    Submetidos a várias sessões de choques elétricos  (mais como castigo do que por recomendação médica), Zezé foi, enfim, considerado inabilitado para servir o Exército.

    Trocou o fuzil pelo surrado cabo de enxada, do qual  ele não tinha boas lembranças. “Sai da moita e cai no mato”, contava ele, fazendo pilhéria de sua má sorte.

    A tortura, comum aos “desertores”, com o eufemismo de “tratamento psiquiátrico”, pelo menos é o que diziam os laudos, custou caro ao jovem candieiro de Pedro da Silva.

    Por falta de informação, Zezé – e os demais torturados pelo mesmo motivo – não sabia que fora castigado. Para ele, tudo não passou de um tratamento doloroso.

A súplica de mãe    

    Fato é que a vida não dava tréguas ao filho primogênito de Pedro e Inês. Entre a convocação para o Exército e o casamento, passaram-se muitas coisas nos limites da fazenda de Pedro da Silva.

    Inês, muito doente, um dia chamou Zezé à beira de sua cama para uma súplica de mãe. “Meu filho”, disse ela, afagando as suas têmporas, “não tenho muito tempo de vida. Quando eu morrer, cuide de Vevê, não deixe ele aqui na fazenda”.

 

    Zezé aquiesceu com a subserviência de um bom filho e deixou o quarto arrasado com a possibilidade da perda de sua mãe. De todos os irmãos, Vevê era o que mais preocupava. Inês  queria que Zezé assumisse a condição de pai e mãe do rapaz, na sua ausência. Pedido feito e cumprido.

    Após a morte da mãe, em 1950, Zezé levou Vevê para morar com ele. Olga tratava-o com muito carinho.

    Internato pelo pai tempos depois em Barbacena, na década de 1970, Vevê sumiu misteriosamente. Zezé se dizia culpado por isso. Ficaram sabendo de seu desaparecimento através de um telegrama enviado pela direção do hospital à fazenda.

    Na cabeça de Zezé, ele teria descumprido o pedido da mãe para que cuidasse de Vevê, por isso se penitenciava sempre que lembrava do irmão. desaparecido. Estas lembranças minaram a sua saúde, ao ponto de ter que se internar mais de uma vez por problemas de cabeça.

    Olga, já com filhos pequenos, aguentava tudo sozinha, preocupada para que os problemas do marido não afetassem as crianças. Ela tinha a compreensão exata da dor de Zezé, de seus devaneios e alucinações.

 

    Pé na estrada

 

    Com o nascimento dos primeiros filhos, Carmem, Joana Darc e José Cleves, o casal se viu obrigado a sair da roça para morar em São Miguel, que emancipou-se em 1954 e tinha mais recursos.

    Zezé aprendeu a dirigir com o amigo Silvio Lopes e virou caminhoneiro. Viajava muito, transportando grãos para o Rio de Janeiro e babaçu como principal carga de retorno. O babaçu era utilizado como ração e alimento para animais.    

    Com um bom dinheiro que recebeu de presente do pai, Zezé comprou um caminhão novo e os negócios prosperaram de tal forma que ele montou um entreposto de grãos.

    A facilidade de fazer amigos e a confiança demonstrada alavancaram os negócios. Construiu uma casa nova na cidade e tudo ia bem, até que Olga apresentou uma cicatriz feia no braço, provocada por uma vacina.

    Ela foi levada ao médico que recomendou uma cirurgia para a retirada da cicatriz. A operação piorou ainda mais o seu braço. Levada a Juiz de Fora, descobriu-se que se tratava de uma quelóide, doença congênita sem nenhuma gravidade, mas que, a qualquer corte, provoca uma cicatriz.

    Aos olhos leigos, parecia uma doença grave, um tumor maligno, por exemplo. Incomodado com isso, Zezé não mediu esforços para tentar um tratamento em outro centro mais avançado, mas não obteve êxito.

    Para piorar, os negócios deram para trás. Os motoristas que arrumou não cuidaram bem dos caminhões que começaram a dar defeito e os grãos a estragarem nos depósitos.

    As dificuldades eram muitas. O caçula Cleves já havia sido entregue aos avós maternos, Nico e Ernestina, com dois meses de idade para que eles cuidassem do menino enquanto Olga tentava recursos médicos fora.

    Foi numa de suas viagens que fez para receber uma dívida que ficara para trás, que Zezé teve o maior desgosto de sua vida. Algo que o marcou para sempre. Ele estava no Rio, quando a sua mãe faleceu. Como não havia meios de comunicação eficientes na época, ele somente ficou sabendo da notícia após o enterro.

    Esse trauma perseguiu-o pelo resto de sua vida. Filho obediente, religioso, que amava os pais e os irmãos como a si mesmo, Zezé se penitenciou até a morte pelo fato de não ter podido dar o último Adeus  à sua mãe. Reclamou isso a vida toda.

    O problema se agravou com o desaparecimento de Vevê. Perder o enterro da mãe e o irmão doente em um hospital, sem ter também a possibilidade de pelo menos velar o seu corpo – e a torturante passagem pelo Exército – machucaram o cérebro de Zezé de tal modo que era difícil para Olga controlar tamanho sofrimento do marido.

    Zezé tinha insônia, alucinações, surtos psicóticos e distúrbios neuróticos de toda a sorte. Foi por diversas vezes internado em Juiz de Fora, obrigando Olga a viajar sem poder para cuidar do marido.

    Cuidou tanto dele, que aprendeu o ofício de enfermeira, na clínica do Dr. Guilherme de Souza, em Juiz de Fora. Teve que se mudar para próximo da cidade, a fim de ficar mais perto do marido e do novo trabalho.

    Sorte de Olga que, com o tempo, os filhos mais velhos, Carmem e Joana Darc não davam trabalho.

    “Me marcou muito aquela época a música “Índia”; era linda essa música”, conta Joana Darc, que veio a ser a segunda mãe de todos os seus irmãos, a mais doce filha de Zezé e Olga. 

    Parece que a sua doce meiguice veio de um dos versos dessa guarânia que vendeu mais de um milhão de discos na ocasião:

    A música foi gravada por Cascatinha e mais tarde regravada por vários cantores, entre os quais Gal Costa, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo, Francisco Petrônio, Paulo Sérgio, Caetano Veloso, Nara Leão, Maria Bethânia, Joanna e Fagner.

    Outra música que marcou muito a família de Zezé e Olga, naquela ocasião, foi  “Meu primeiro Amor”, cujo primeiro verso dizia:

 

“Saudade, palavra triste/quando se tem um grande amor,

na estrada longa da vida/eu vou chorando a minha dor”

 

      Carmem e Joana foram o pé-de-boi de Zezé e Olga, pela disposição para o trabalho. Tinham personalidades distintas. Joaninha era mais apegada aos serviços domésticos. Quando um dos irmãos mais novo pedia colo, ela pegava-o pela cintura com uma mão e com a outra fazia os serviços da casa. Pedro era um dos que não saia do seu colo.

    Carmem, a mais velha, era mais atirada. Também nascera para o trabalho. Chegou a carregar cestas de verduras na cabeça para comprar material escolar para ela e os irmãos. Espevitada, mentiu sobre a data de seu nascimento para arrumar o primeiro emprego. O contracheque ela entregava à mãe para que Olga pudesse sustentar a casa, na ausência de Zezé.

    Era assim os filhos de Olga: um ajudava o outro e, juntos, levavam a vida em paz e harmonia. De todos os filhos, Paulinho foi o mais travesso. Era tão peralta que Zezé teve que contratar um rapaz para servir de babá do menino, em São Miguel do Anta.

    Foi assim só de pequeno, depois virou um doce, como os demais filhos do casal. Mérito da mãe? Zezé concordava em parte. Para ele, a felicidade de seus filhos se deveu à sua fé infinita.

    Ele dizia que entregou todos os seus filhos nos braços sagrados de sua Mãe Eterna, Nossa Senhora da Aparecida, “que cuida deles para nós”, gabava-se Zezé, devoto fervoroso da Padroeira do Brasil.

    Venerou a Santa vida toda. Já doente, no final da vida, pegava todo o dinheiro que sobrava e colocava num envelope para mandar para a Basílica, em Aparecida do Norte.

    Numa viagem que fez à Basílica, para uma entrevista na TV Aparecida, o filho Cleves comentou com o padre que o convidou para o programa o prazer que tinha de conhecer um lugar tão especial para o seu pai, já falecido.e obteve a seguinte resposta:

    “O manto de Nossa Senhora acolhe a todos, especialmente os de mais fé; esses conseguem a graça para toda a família a vida toda”.

Amém!

 

O legado ( e a paixão pelo pai)

    A história de Zezé e Olga é uma lição de vida, sofrimento e amor ao próximo. O casal teve outros oito filhos, além de Carmem, Joana e Cleves (pela ordem): Paulinho, Rita, Antônio, Pedro (que juntamente com os outros três nasceram em São Miguel do Anta), Inês, em Juiz de Fora; Eduardo, Shirley e Luciano, que são de Timóteo. Rita faleceu em 1994, aos 39 anos.

     Criar essa filharada toda em épocas tão difíceis e mantê-los unidos foi, sem dúvida, a grande obra de Zezé e Olga.

     As circunstâncias com que essa família foi criada e o resultado obtido contraria qualquer projeção no campo da sociologia que prevê graves problemas para os chamados traumas de infância.

     O segredo está na boa formação, a honestidade e o caráter fraterno-religioso cultuado pelos pais. Zezé, mesmo com todo o seu sofrimento e traumas, sempre foi um homem bom, honesto, trabalhador e de muita fé.

    Era apaixonado pelos pais e ensinou aos filhos essa necessidade de se venerar o pai e a mãe. Era tão apegado ao pai Pedro (falecido em 2004, aos 103 anos), que quando falava seu nome os olhos até brilhavam de orgulho. Obedeceu-o com a fidalguia de um súdito.

    Aliás, para Zezé seu pai era tudo. Comprava-lhes presentes, tinha orgulho de tomar-lhe a benção, e visitava-o frequentemente, onde fosse que ele estivesse. Não havia distância que os separassem. Dizia sempre: “É preciso amar os pais e ter muita fé em Deus”.

    Nunca permitiu a um filho falar mal de seu pai que ele amava acima de qualquer coisa. Chegava a levar de Timóteo – onde passou a morar desde o início dos anos 60 – até alimentos fresquinhos para o pai em Viçosa, a mais de 260 quilômetros, pelo simples fato de agradá-lo naquilo que ele gostava.

    Conversava com o seu pai com se estivesse falando com Deus. Sua obediência era algo caricatural. À véspera da morte do velho Pedro, Zezé, já octogenário e doente, pediu a Cleves (que se orgulha de ter o nome do pai, Zé da Silva) para levá-lo a Viçosa. Queria visitar o pai. Chegaram na casa de Pedro já quase noite.

    O velho era sistemático: deitava cedo, tipo oito horas, sempre foi assim, e quando se recolhia, todo mundo tinha que ir para o quarto também. Não foi diferente naquele dia.

    Acontece que Arminda, a madrasta, uma quase mãe (casou-se com Pedro em 1958), queria conversar e chamou Zezé e Cleves para tagarelar na copa.

    Pedro acordou para tomar água e Zezé correu para a sua cama, cobrindo o rosto com o lençol para fingir que estava dormindo. Igual uma criança.

    Havia, na verdade, uma cumplicidade entre pai e filho. Vaidoso e com uma saúde de ferro (foi ao médico pela primeira vez no final da vida), Pedro da Silva era um carvalho curtido no vinho.

    Tomou durante 100 anos o seu aperitivo (um gole de pinga antes da refeição) e quando nasceu o seu primeiro neto, filho de Olga, conta-se que o velho chamou Zezé e pediu-o, com a parcimônia de um general que nunca teve uma ordem descumprida, para que nenhuma das proles do casal o chamasse de vovô.  “Padrinho. Vovô, não!”, ordenou.

    Zezé passou a lição para os filhos e todos eles a cumpriram, religiosamente. Até porque, naquela época era comum chamar os avós de padrinho. Olga não confirma esse pedido do sogro.

    Mas Cleves, já grandinho e como sempre curioso, um dia se perguntou: “Engraçado, será mesmo que todo mundo lá em casa é afilhado de Padrinho Pedro?”

Encafifado, procurou o vô, Nico Milagres e sapecou:            

    “Pai Nico, porque todo mundo lá em casa chama Padrinho Pedro de padrinho e aqui todo mundo chama o senhor de vô?”

    Nico Milagres se preparava para responder a pergunta do pirralho, quando Bastião, irmão de Olga, intrometeu:  “Papai, isso é safadeza de Zezé e Pedro” sapecou o implacável Bastião,dando uma gargalhada daquelas de fazer qualquer um sair do sério.

    Aliás, este irmão de Olga levou a vida na brincadeira. Tinha uma memória de elefante. Antes, contava mentira invocando testemunhas difíceis de serem localizadas ou cúmplices de suas brincadeiras. Depois, praticamente cego, por conta da diabetes, deu para justificar a falta de testemunha por não vê-las. Seu genro Carlos Alberto conta que certa ocasião Bastião noticiou a morte de um conhecido.

    Questionado sobre quem deu a notícia “mentirosa”, respondeu: “Como vou saber, se não enxergo direito?”

   Nada, absolutamente nada, tirava o humor do incorrigível Bastião, outro que criou uma família maravilhosa, na base da brincadeira. Colocava apelido em todo mundo. Até nos netos. Não gostou? Aguenta, porque com Bastião na área, não tem tempo ruim.

  Talvez isso justifique a sua longevidade.  Morreu com mais de 90 anos. Quando Zezé morreu, disse Bastião aos filhos: “Esse vai pro céu com a mão cheia”.

    Voltando a Zezé, quando seu pai morreu, ele, que perdera o enterro da mãe e, por ironia do destino, não podia velar também o pai, por problemas de saúde, ligou para o sobrinho Ildeu, filho de Bastião, preocupado com o enterro do velho.

    “Pois é, meu filho” – disse ele a Ildeu – “estou muito preocupado com o enterro de papai, porque ele estava há anos longe de São Miguel e pode ir pouca gente no sepultamento”. No que respondeu Ildeu: “Pode ficar tranquilo, Tio Zezé, porque o senhor tem muitos amigos aqui e vamos lá levar o seu pai para o cemitério”.

    Foi um cortejo e tanto, noticiaram mais tarde os amigos de Zezé que ficou muito agradecido com esse gesto de gratidão de seus discípulos.

 

Um vicentino roxo

 

        Além de bom filho, Zezé era altruísta e vicentino desde pequeno. Herdou isso do pai, que durante muitos anos presidiu a congregação, em São Miguel do Anta. Pedro da Silva reservou uma área na fazenda exclusiva para os vicentinos. Tudo que se cultivava naquele pedaço de terra era para o Natal dos pobres.

        Quando se mudou para Timóteo, em 1961, a primeira coisa que Zezé fez foi procurar uma irmandade de São Vicente de Paulo para continuar a sua vida de vicentino, coisa que ele gostava de fazer por puro amor ao próximo. Isso o fazia feliz.

     Pois bem, na primeira reunião do grupo para decidir sobre o natal dos pobres daquele ano, a lista com a relação das pessoas que deveriam ou não receber a cesta de alimentos simplesmente desapareceu.

     Os vicentinos, sem saber o que fazer, porque havia, nessa lista, muitas famílias que não deveriam receber o presente, seja porque pisou na bola com a instituição, no ano anterior, ou porque estava pedindo sem merecer.

     Conversa vai, conversa vem, até que chegou a vez de Zezé falar. Ele disse: “Acho que vocês estão preocupados à toa, porque ninguém pede comida com barriga cheia; se tá na lista, vamos doar, se  a comida acabar, pedimos mais”.

    O pessoal já estava desconfiado dele, mas foi o que um dos vicentinos, presentes a este episódio, confessou a Cleves, no dia do enterro de Zezé: “Esse homem me ensinou a ser vicentino. Ele sumiu com a lista”.

 

       Após a aposentadoria, Zezé se entregou de corpo e alma à causa dos oprimidos. Visitava presos, doentes e asilos. Gostava de ajudar os pobres e dizia, sempre, que era necessário ter muita atenção com os mais necessitados. Os desamparados. Às vezes, entrava em procissão de enterro sem saber quem era o morto. Quando alguém o criticava, ele respondia: “É nessa hora que a família mais precisa dos outros”.

   

      Zezé era assim. Para ele, saber quem era o morto não era o mais importante; importante era amparar a família. Valia mais a causa do que as pessoas. Prova disso foi a sua “paixão” pelo Governo Lula.

      Ele nunca foi político. Mesmo sendo filho de um fazendeiro ligado ao Partido Republicano (PR), bernardista roxo, não havia rastro seu nos caminhos nebulosos da política.

      Mas quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o poder dizendo que iria governar para os pobres, ele pagou para ver. Virou lulista, não petista, mas lulista de carteirinha. Passou a gostar de televisão para ver o presidente falar. E mesmo muito doente, já no final de sua vida, fazia questão de pedir silêncio às pessoas para acompanhar as notícias do Presidente Lula.

     Também pudera. Para quem saqueava a despensa da casa para doar alimentos aos pobres, ver um Presidente da República dizendo que iria governar para os excluídos, era tudo que Zé da Silva queria na vida.

     Votou em Lula, rezou muito pela sua reeleição, e ninguém em casa, mesmo contra o PT, pela roubalheira e as coisas erradas do partido, se atrevia a contrariar Zezé que fazia ouvido de mercador diante das criticas ao presidente na televisão.

      Nem os escândalos do Mensalão o fez repensar seus conceitos. Nunca se beneficiou dos programas sociais do Governo Federal, até porque não precisou disso, mas consultava os pobres a esse respeito e formava a sua opinião. Era crítico, quando necessários, mas um  critico construtivo.

            Zezé era um homem diferenciado. Era moralista, sem ser moralista com os filhos, e católico fervoroso, mas não era daqueles de cobrar da família ir à igreja todo dia, como ele fazia. Era igual guarda de trânsito: apontava o caminho certo e deixava para as pessoas seguirem ou não as suas orientações.

   Mesmo depois de velho e doente, portanto, sem condições de subir a ladeira de acesso à igreja, ele se aprontava cedo e saia serelepe, sem que os filhos percebessem a sua escapada para assistir à missa dominical. Questionado sobre isso, ele respondia: “Não gosto de obrigar ninguém a ir à igreja, porque Deus não gosta de nada obrigado”. 

   Adepto intransigente da monogamia, Zezé não batia de frente com os infiéis. Dava o seu recado, do tipo bater na cangalha para o burro entender. Diante de um comentário meio maroto sobre o assunto, envolvendo o filho Antônio, que estava presente, Zezé, já aos 80 anos, disse o seguinte para o filho Cleves. “Olha, quando conheci a sua mãe, uma outra moça da cidade queria namorar comigo escondido; poderia ter aproveitado dela, mas não quis, porque um homem não pode ter duas namoradas”.

   A carapuça encaixou direitinho em Antonio, conhecido pelas suas travessuras amorosas. Um sermão sutil, bom de se ouvir, porque a conversa não rende. Até porque, se rendesse Olga poderia achar ruim.

    Zezé chegou aos 80 anos, em 2009, pregando a paz. Emplacou 2010 irradiante. Passou o Natal do jeito que gosta, no seu apartamento com os filhos, genros, noras, netos, bisnetos e amigos. 

    Pouco tempo depois, à véspera de morrer, mandou chamar todos os filhos. Olga discordou da convocação, porque muitos estavam fora do País, outros longe de Timóteo, cada qual com o seu compromisso, mas Zezé não recuou.  "Quero meus filhos". 

    O jeito foi fazer a convocação. No dia marcado, lá estavam todos eles ao redor de sua cama. Ele foi curto e grosso: "Estou chamando vocês aqui, mas não é para vocês me verem, eu é que quero ver todos, assim", e correu o lho em um por um. 

    Estava dado o recado.
    Ele sabia que não tinha muitos dias de vida e queria ver os filhos juntos pela última vez. Zezé era uma pessoa muito emotiva, gostava de fazer amigos, receber visitas, paparicar os parentes. Seu xodó era a filha Joaninha, a meiga Joana D ´Arc, que ele caçava nos cômodos da casa com olhar de felino quando precisava de alguma coisa urgente. O carinho era reciproco e Joaninha fazia tudo que ele queria.

    Aliás, Zezé e Olga colecionaram amigos a vida toda e foram tão bem sucedidos nessa tarefa – para muitos quase impossível – que nunca tiveram inimigos. Viraram uma referência para as pessoas.

 
           

            A mocinha inocente que um dia escolheu Zezé para ser o seu par eterno é hoje a matriarca de uma família que tem orgulho de tomar-lhe a benção e seguir os seus ensinamentos. O maior deles: “Da vida não levamos nada e não podemos por defeito em ninguém. Precisamos é de viver em paz!”

                                                 

Vida cigana

    Zezé e Olga tiveram uma vida cigana. Começaram a constituir família na localidade de Buraco de Areia, terreno da fazenda Bom Jardim, do velho Pedro da Silva. Depois se mudaram para São Miguel do Anta. Moraram muitos anos em um sobrado da Rua das Flores, logo na entrada da cidade. Construíram uma casa na mesma rua, perto da praça, moraram de aluguel em outro casarão em frente e construíram um sobradinho no bairro Sossego, onde ficaram pouco tempo.

    Com a doença de Zezé, foram para a cidade de Matias Barbosa, por volta de 1956, e depois para Juiz de Fora, onde fixaram residência durante muitos anos na rua Baependi Deodoro, no bairro Vitorino Braga. Zezé trabalhava de caminhoneiro e Olga, de costureira. No final da década de 1950, foram morar na fazenda Cantinho do Céu, em Viçosa, também do pai.

    A fazenda fora utilizada como esconderijo do ex-presidente da República Artur Bernardes, que governou o País durante quatro anos em estado de sítio, um ato extremo normalmente decretado quando o poder do presidente corre riscos.

    Como se sabe, Bernardes não tinha apoio total das Forças Armadas, exatamente por conta daquela maldita carta enviada a Raul Soares criticando a “sargentada”, uma referência aos militares rebeldes e anarquistas.

    Bernardes negou a autoria da carta e foi eleito presidente da República, em 1922, mas sofreu uma resistência danada por parte dos que se diziam ofendidos com as suas “injúrias”.

            Havia à frente da sede da fazenda Cantinho do Céu uma carreira de palmeiras imperiais crivadas de balas, pelo confronto armado entre governo e os desafetos do Partido Republicano (PR). Pena que a Prefeitura de Viçosa permitiu a derrubada desse patrimônio histórico.

            Hoje o local virou bairro. Aliás, muitos outros registros históricos da passagem de Bernardes pela Presidência da República se perderam em Viçosa. Bastião tinha em seus guardados muitas cartas de Bernardes, algumas endereçadas ao seu ministro da Guerra, Dutra, e outras ao próprio Raul Soares.

Não se sabe como essas cartas foram parar nas mãos de Bastião. Sumiram todas. Os filhos de Zezé e Olga foram nascendo e o casal andando. No início da década de 1960, desembarcaram de mala e cuia em Timóteo, no Vale do Aço, com uma penca de oito meninos.

            Zezé havia perdido tudo ao investir a sua herança por parte de mãe numa frota de caminhões de fabricação nacional, logo após a revolução industrial implantada no País por JK, com a nacionalização da fábrica de veículos automotores.

            Decidiu aventurar-se no Vale do Aço onde, segundo informaram-lhe, havia emprego farto. Com a ajuda de alguns amigos, entre os quais os compadres José de Andrade e Yone, Zezé e Olga foram aos poucos reconstituindo as suas vidas. Ele trabalhou inicialmente numa padaria e ela, de auxiliar de enfermagem em um posto de saúde do município, que por ser considerado uma área de segurança nacional, era administrado por um general.

            Zezé fichou como motorista do Corpo de Bombeiros Civil da Companhia de Aços Especiais Itabira (Acesita), onde aposentou-se. Olga foi trabalhar no hospital local, onde também aposentou-se. Passaram uma pequena temporada em Viçosa e retornaram a Timóteo.

 

 

As estripulias de Zezé

 

    Mesmo sendo um homem sofrido, poucas pessoas no mundo têm tanta história interessante para contar como tinha  o simplório Zezé. Ele era hilário, pela simplicidade e a candura.

    Andava com o lenço no bolso de trás quase arrastando no chão, trazia sempre consigo um guarda-chuva (perdia todos) e topava qualquer parada para levar a vida com honestidade.

    Desatento, contam que ele quase caiu no fosso de um lava-jato em Juiz de Fora e já até trocou a mulher, em um hospital. A história é a seguinte: Olga fora operada e quando o enfermeiro veio com a maca para descer a paciente para o apartamento, entraram Zezé e um homem estranho no mesmo elevador.

    Zezé puxou o lençol para beijar Olga e o estranho raiou com ele, afinal era a mulher dele e não a de Zezé que estava naquela maca. Diante da reação nada amistosa do homem, Zezé saiu com essa: “Ah, ta reclamando de quê? A minha mulher é bem mais bonita do que a sua!”.

            O gostoso das histórias de Zezé é que eram todas verdadeiras, porque ele não contava mentira. Aliás, uma virtude do casal, porque Olga também não conta mentira.

            Certa feita, Zezé desceu do bonde em Juiz de Fora levando três guarda-chuvas. O motoneiro viu e os passageiros correram atrás. Zezé reclamou, na maior simplicidade: “Tô levando o que é meu, porque já deixei nesse bonde uns 20 e ninguém devolveu nenhum”. 

            Zezé era mestre na arte de comprar gato por lebre. Até remédio errado ele já tomou. Já sofreu operação errada, pelas confusões que vivia fazendo com os seus negócios e por pouco não matou vários colegas do corpo de bombeiros, na ponte que liga Timóteo a Coronel Fabriciano.

            Este episódio aconteceu quando ele era motorista do carro-bomba, aquele que leva os bombeiros presos às laterais e à traseira. Havia um incêndio em Coronel Fabriciano e o comboio saiu em disparada de Timóteo.

             

 

 

            Ao se aproximarem da ponte, os bombeiros começaram a gritar “pisa fundo, Ventania” (apelido que lhes deram pela sua magreza), na maior gozação, porque na verdade não havia nada de tão urgente assim. Era um incêndio sem maiores consequências.

            Apavorado, Zezé afundo o pé. No ressalto da ponte sobre o viaduto da Estrada de Ferro o caminhão deu um pulo e jogou bombeiro para todos os lados. Nunca mais eles mandaram Ventania correr.

            Zezé já teve vários apelidos. Também pela sua magreza, chamavam-no de “Fio”. Certo dia, chegou um arauto na usina dizendo que “Fio” havia matado várias pessoas no bairro Arataca, perto do cemitério. Foi uma correria danada. Na verdade, foi uma queda de fios da rede elétrica, colocando muita gente em risco, mas sem maiores danos.

            Após a aposentadoria, Zezé resolveu fazer biscates para reforçar o orçamento doméstico. Fazia de tudo: vendia loteria, bijuteria e linguiça. Era comum passar por Zezé de bicicleta e a linguiça na garupa quase arrastando no chão.

            Para carregar as bugigangas  que vendia do Paraguai, ele se enfeitava de colares, pulseiras, anéis, cordões, e distribuía tudo fiado. Não anotava nada. Quando esteve internado em Juiz de Fora, passava o dia fazendo apontamento de jogo do bicho para os pacientes. Um dia um paciente louco cismou que havia acertado a milhar e acabou a brincadeira.

 

            

Festa na fazenda

 

    O cultivo do café foi, por longos anos, o melhor negócio de Pedro da Silva e a maior diversão da fazenda. A lavoura, muito bem cuidada, ficava num alto e fora responsável pelos melhores momentos vividos por Zezé e seus irmãos naquele pedaço de terra. A colheita ocorria entre os meses de março e agosto.

    As colhedeiras de café eram buscadas na cidade por Pedro em seu caminhão international, modelo bem antigo, e passavam o dia na lavoura enchendo o balaio do precioso grão.

            Elas usavam um pano enrolado no colo para não pegar nódoa e, conforme as fases da lua, sabiam dizer as horas olhando para o céu. Ao final do dia, eram levadas de volta a São Miguel do Anta, sempre muito alegres, com o inconfundível turbante na cabeça.

            Uma das músicas preferidas delas era Mulher Rendeira, gravada pelos Demônio da Garoa.

            Mas o melhor do café era o final da colheita, quando era farta, naturalmente. Pedro da Silva comemorava o feito com uma grande festa no terreiro de cimento grosso, onde ficavam os silos, bem próximo ao curral, de frente para a sede da fazenda.

            Pedro comandava tudo do alpendre forrado por um lindo bougainville lilás, a maravilha tropical que enfeitava a entrada do casarão e refrescava a sacada, local predileto de todos na fazenda.      

Voltando à festa da colheita de café, a grande atração era Zé Camilo e a sua sanfona  de oito baixo. Foi esse negro baixinho, de fala mansa e astuto, que inspirou Zezé a gostar de tocar o instrumento.

            Zezé ficava horas  à fio apreciando o sanfoneiro mover o fole da oito-baixo, que abrindo é uma nota e fechando é outra.

            Zezé apaixonou-se pela sanfona e mais tarde comprou uma da marca sacandalle, modelo maestrinha, onde aprendeu as primeiras notas. Depois,adquiriu uma acordeom e, mais tarde, outra, para que a filha Joana aprendesse a tocar, já que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia variar muito de repertório.

            Infelizmente, a acordeom ficava mais no estojo do que em uso, porque Joana parece que não apreciava muito o instrumento. Já Zezé, com graves problemas de coluna, se viu obrigado a desistir de seu instrumento preferido.

            Saudosista, era comum vê-lo sozinho assoviando as valsas dos tempos de sua juventude. O resfolego da sanfona o fazia feliz, porque, como ele mesmo dizia, no seu tempo o bicho pegava e o couro comia.

            Era do alpendre também que o fazendeiro aboiava as vacas de leite e seus bezerros pela manhã. Elas desciam o pasto em fila, obedientes como cordeiros.

            Era, ainda, desse alpendre que Zezé apreciava a festa da colheita, inebriado pelo som marcante das valsas, polcas e, depois, pelo baião tocados por Zé Camilo.

            Marcou muito seus filhos mais velhos verem, ainda criança, Zezé nas tardes de domingo numa cadeira à frente da casa  forçando o ar do fole por entre as palhetas de sua inseparável acordeon, horas e horas tentando esquecer as agruras ao som de uma valsa maltocada (a preferida era Danúbio Azul), mas assim mesmo gostosa de se ouvir.

            O fole de uma sanfona marcou tanto esse candieiro, que já no final de sua vida, respirando por aparelhos, pediu aos filhos que comprassem para ele o cd do sanfoneiro Mário Zan, um italiano radicado no Brasil que fez muitos sucessos em meados do século passado com músicas rancheiras e juninas.

            Zezé queria, na verdade, voltar naquele pedacinho do tempo que ele mais gostava – o único, aliás, que o fazia feliz.

            Quando puseram a música para ele ouvir, dias antes de sua morte, as lágrimas desceram pelo seu rosto sofrido, algo tão marcante que emocionou a todos.

            Pelo menos por alguns segundos, a falta de ar foi esquecida, a dor no corpo desapareceu e as lembranças tristes sumiram. Zezé pode, por míseros segundos, curtir um pouco a vida.

            As lembranças foram tão fortes que o choro veio como um desabafo. Como diria o poeta, infelizmente a máquina do tempo não é uma fantasia, porque se assim  fosse, seria fácil para Zezé voltar ao tempo que ele mais queria: o da oito-baixo, no terreiro de café da fazenda de seu pai. Algo vivido por ele com intensidade 70 anos atrás.

 

A volta por cima da bordadeira Olga Milagres

 

 

            Olga sempre gostou de bordar. Aprendeu o ofício ainda menina, com trabalhos florais, usando tecidos e outros arranjos manuais para fazer adereços, até chegar às maravilhosas toalhas em crivo ou com barra em macramê. Aliás, nas mãos habilidosas dessa bordadeira, o que não fica bonito?

             Tricô, crochê, macramê, com crivo, sem crivo, ponto reto, ponto cruz, russo, tudo em suas mãos vira artesanato ou alta costura, porque esse é o seu talento.

            A habilidade com os instrumentos, a precisão e a alta qualidade de sua arte nos remete a tempos passados, quando o corte e costura era uma das principais atividades das mulheres, nos anos 50 e 60.

            Olga teve oficina de corte e costura em Juiz de Fora, depois resolveu se enveredar para o campo da pintura sobre espelhos  que enfeitam a casa de muita gente. Mas o que ela gosta mesmo é do macramê e o crivo.

            Nem mesmo uma cirurgia de alto risco a que foi submetida no inverno de 2009 para colocar três pontes safenas e uma mamária, aos 80 anos de idade,  vergou essa mulher-coragem.

            “Não tenho medo, meus filhos, preciso ficar boa para acabar de criar e curtir vocês”, foi o que ela disse à sua numerosa prole a caminho do bloco cirúrgico. Ela precisava, também, de continuar com os seus bordados domésticos para presentear filhos, netos, noras e amigos.

            Como era de se esperar, a cirurgia feita no Hospital Márcio Cunha pelo jovem cirurgião Jackson Brandão Lopes e equipe (doutores Luiz Renato, Isac, Maxuel, Pedro Paulo e Eduardo Cotta), foi tão bem-sucedida quanto os bordados da paciente.

            Os médicos, com cara de netos de Olga, pela juventude e o carinho que tiveram com ela antes, durante e após a cirurgia, ficaram surpresos com a recuperação da paciente. “Dr. Sávio, meu geriatra, cuida de mim como um filho; ele me ajudou muito nessa recuperação”, reforça a paciente, demonstrando a gratidão de uma Filha de Maria.

            Olga é uma mulher decidida, ansiosa, mas de uma organização de dar inveja. Aliás, a ansiedade de Olga  tem a ver com o seu caráter  e a independência feminina.

            Criada sem a obrigação de fazer nada, de repente ela se viu, após o casamento,  obrigada a tomar a frente de tudo por causa dos problemas do marido. Tinha que cozinhar, arrumar casa, cuidar dos meninos, trabalhar fora e arranjar dinheiro para cobrir as despesas. Tudo tinha que ser muito rápido.

            A educação dos filhos, que seria a parte mais difícil de sua tarefa, ela tirou de letra. Em um tempo em que os filhos eram tratados a ferro e fogo, Olga, que nunca lera um livro de psicologia – e o mundo andava longe da tal ciência cognitiva – aplicava métodos de educação infantil com a genialidade de uma mestra.

            “O diálogo, meus filhos; não adianta bater e gritar; criança a gente educa ensinando, conversando com ela, dando bons exemplos”, ela ensina.

            Com essa ferramenta afiada, Olga e Zezé, que também sempre foi carinhoso com as crianças, criaram a família com muita honestidade e devoção

 

Porque os nomes Zezé e Olga

 

 

Zéze, batizado José Paulo da Silva, teve o nome do avô Zé da Silva. Era comum naquela época dar aos filhos o nome de seus pais, avós e triavós. Mas e Olga, de onde surgiu esse nome?

            Pois bem, o seu nome veio de uma miss. A miss oficial do Brasil de 1929, Olga Bergamini de Sá, natural do Rio de Janeiro.

            Tudo por causa de Antônio, irmão mais velho de Olga, um rapaz bonito e garboso (andava sempre de terno bem engomado e chapéu), que morreu logo após o nascimento de sua irmã.

            Antônio encomendou ao comerciante Zé Cury, um libanês que viajava muito, uma revista do Rio de Janeiro que falava sobre as beldades que transitavam pela Capital Federal do País.

Não havia muitas publicações tipográficas naquela ocasião e as poucas que existiam dificilmente chegavam ao interior.

Zé Cury, sempre muito atencioso com Antônio, trouxe uma revista que trazia na capa a foto da Miss Brasil Olga Bergamini, uma jovem de origem italiana nascida no Rio. Realmente muito bonita. Ela trajava um vestido vermelho que ficava bem com a sua pele alva.

            Na verdade, Antônio fez aquilo de caso pensado. Ele queria um nome diferente para a garotinha e pediu à mãe para que ela se chamasse Olga. “Mas Olga, porque Olga, não pode ser Maria?”, teria indagado Ernestina, ligada à Irmandade Sagrado Coração de Jesus e também às Filhas de Maria, Congregação ligada à Pia União das Filhas de Maria, de Viçosa, à qual pertencia o distrito de São Miguel do Anta.

            O objetivo da congregação era a manutenção da virtude e da honra, uma das grandes preocupações dos romanizadores. Normalmente as Filhas de Maria nunca deixavam de batizar suas filhas com o nome de Nossa Senhora. Maria era o mais comum. Era algo quase dogmático isso naquela ocasião (Olga, por exemplo, teve duas Marias, Carmem e Inês).      

Dentro da hierarquia católica, investir nas congregações femininas significava utilizar a subordinação delas para combater a influência das irmandades lideradas por leigos.  Portanto, como Filha de Maria, Ernestina deveria dar o nome de sua caçula de Maria. Mas Antônio tanto pediu que a mãe aceitou batizar a menina de Olga Rodrigues Milagres (depois de casada, virou Olga Milagres da Silva).

            Astuto, Antônio jamais poderia falar para a mãe que o nome de Olga viera de uma miss, porque isso na época era algo profano. Expor publicamente a beleza feminina era  proibido para as beatas. Antônio curtiu pouco a sua irmazinha: morreu aos 21 anos de pneumonia, quando Olga era ainda um bebê.

            Olga conta que um dia, já aos 14 anos, foi à alfaiataria de Cornélio, um solteirão sistemático e também muito religioso. Cornélio, alfaiate de Antônio e vicentino, abriu uma revista e mostrou a foto da bela Olga Bergamini para a menina, dizendo: “Tá vendo isso aqui? É por causa dessa miss que você se chama Olga”. 

            Olga se recolheu, recatada, e nada falou aos pais sobre o que acabara de descobrir naquele momento.

 

 

 

Os exemplos dos pais de Olga, Nico e Ernestina

 

Se Pedro da Silva e Inês foram a grande referência do filho Zezé para a criação de sua família, Nico Milagres e Ernestina foram o espelho e a estaca que Olga teve em toda a sua vida, pelo exemplo e a obstinação de um casal que tinha, na honestidade e simplicidade, a receita para vencer todos os obstáculos desse mundo.

            Nico, um grandalhão corpulento pouco afeito a conversa fiada, gostava de um comércio. Nasceu na Fazenda São Pedro, perto de São Miguel, no dia de São Pedro.

Deveria chamar-se Pedro, como o pai de Zezé que nasceu no mesmo dia e herdou o nome do santo, mas preferiram os seus pais Joaquim e Maria que ele se chamasse Antônio, em homenagem ao outro santo festeiro.

            Nico foi para São Miguel no início do Século XIX, onde fundou a tradicional Padaria Santa Cruz, na Praça Padre Adalberto. Era um homem sonhador. Jogou na loteria a vida toda, na esperança de ganhar um bom dinheiro e comprar um carro para viajar. Adorava passeios.

            Gordo e com dificuldades para se locomover, sempre que precisava ver os filhos que moravam fora (nunca deixava de vê-los, periodicamente) chamava Zé Queroz, marido de Regina, para levá-lo no seu Chevrolet preto, carro confortável, o mais bem cuidado da cidade. Regina mantinha em sua casa uma agência dos Correios que funcionava na sala.

            Quando não era Zé Queiroz, era Ciriaco, motorista de Aziz, filho de Salim, dono de quase tudo em São Miguel do Anta. Aziz veio de Beirute no colo dos pais Salim e Lon, foragidos do Líbano no início do Século XX. “Viemos no convés do navio”, dizia Salim.

            A imigração libanesa começou oficialmente no Brasil por volta de 1880, após a visita do imperador Dom Pedro ao Líbano. A maioria dos imigrantes veio fugindo da falta de perspectiva econômica da região, então dominada pela política turco-otomana.

            O Brasil, na época, atravessava a sua primeira fase de urbanização e industrialização, o que tornava propícios os novos negócios. Diferentemente dos imigrantes europeus, que procuraram no Brasil as terras para cultivo, os libaneses encontraram nas cidades um local para a criação de indústrias e casas de comércio.

            A maioria deles começou a sua vida no país vendendo mercadorias de porta em porta como mascate. O dinheiro juntado acabou sendo o pontapé para a abertura de pequenas confecções e lojas de tecidos.

            Muitos dos imigrantes libaneses que vivem ou viveram no Brasil colaboraram inclusive com o desenvolvimento do próprio Líbano, enviando ao país de recursos que propiciaram a construção de hospitais, escolas e bibliotecas.

            Salim dizia que veio para ficar, fugido da miséria do Líbano. Gostava de dinheiro. Aliás,  Aziz era chamado de usura por alguns moradores da cidade, pelo simples fato de emprestar dinheiro. Justiça seja feita, Aziz, pelo tudo que fez por São Miguel, deveria ter uma estátua erguida na praça principal.           

Aziz era chamado de usura por alguns moradores da cidade, pelo simples fato de emprestar dinheiro. Justiça seja feita, Aziz, pelo tudo que fez por São Miguel, deveria ter uma estátua erguida na praça principal. 

Ele socorria famílias doentes fora de hora nos seus carros – um reluzente automóvel plymouth canadense preto, ou no caminhão dirigido por “Velho”, que transportava tambores de gasolina e querosene para o posto de combustível – sem fazer questão do preço da corrida e nem de quando iria receber o serviço.

Primeiro socorria, o acerto viria depois, quase sempre nas condições impostas pelo cliente. Nico, por exemplo, morou  muitos anos de aluguel numa casa de Aziz, sem contrato e correções impostas pelo mercado imobiliário. Não havia recibo de pagamento do aluguel e nem cobranças.

Sempre muito apertado, Nico, às vezes, atrasava o pagamento e Aziz nunca reclamou de nada.  A casa foi comprada por Nico, como era o seu sonho, dias antes de sua morte, numa operação comandada pelo filho mais velho José Milagres, o Braga, com tudo facilitado por Aziz.          

            O escritório do “turco” era um verdadeiro banco. O birô que ele utilizava para os empréstimos era uma bagunça, com papel para todos os lados, notas promissórias assinadas não se sabe por quem, enfim, o turco era mesmo desorganizado.

            De vez em quando era emparedado pelo pai Salim, já meio ranzinza, mas dava seu jeito. Construiu a primeira casa de cinema da cidade, fazia os cartazes para as partidas de futebol aos domingos, também de graça, tinha um serviço de alto falante que anunciava os principais eventos religiosos e artísticos da cidade, e dava até notas de falecimento, aniversário e outros serviços de utilidade pública.

            Aziz vestia-se de mulher nos carnavais e era um bom piadista, sempre com um sorriso aberto. Patrocinava teatros e eventos culturais em sua casa de cinema. Sua filha mais velha, Sônia, gostava de cantar. Muito bonita, causava frisson na rapaziada.

            Por ser assim, Nico era, talvez, o seu maior admirador. Foram amigos. Aliás, Nico era um homem de poucos amigos, porque não enturmava. Não freqüentava o jardim da praça, ponto de encontro dos adultos para a resenha matinal e dos footings noturnos de rapazes e mocinhas, enquanto aguardavam o início do filme, às 20h, com películas operadas por João Faria.

            O filmes sofriam interrupções de 15 em 15 minutos, ou por problemas na máquina de projeção ou na fita que arrebentava. Mais tarde surgiu o CinemaScope, desenvolvido pela Century Fox, uma inovação fantástica do mercado cinematográfico que durou anos para chegar a  São Miguel.

            Os filmes eram exibidos na quarta-feira, sábado e domingo, sempre no mesmo horário. No domingo, havia matinês. Metódico, Nico estabeleceu que o neto Cleves não poderia ir a todas as sessões cinematográficas, ainda que de graça, já que, amigo dos filhos de Aziz, o garoto gozava de regalias. Por exemplo: se auxiliasse os filhos do dono do cinema, Roberto e Gilberto (os mais velhos), a limparem as poltronas, tinha entrada de graça.

            Mas, sistemático e metódico, Nico estabeleceu que o neto somente poderia ir a uma sessão por semana. Independentemente de qualquer outra situação. O argumento filosófico era de que ninguém tem tudo o tempo todo e que, portanto, era preciso educar o garoto com regras.

            Para romper essa barreira, Cleves tinha um grande aliado: o tio Bastião, que não perdia um filme. Para enganar Nico, Bastião escondia Cleves debaixo de uma capa gaúcha para levar o menino sem o avô ver.

            Mas, como explicar a ausência do guri em casa, já que os filmes terminavam tarde da noite pelas interrupções constantes do equipamento?

Bom, ai entrava Ernestina, cúmplice de Bastião nessa parada. Tete, como ela era chamada por Cleves, deixava a porta destrancada e quando o menino entrava, lá estava ela, serelepe e pedindo silêncio para Nico não acordar.

“Supimpa!”, comemorava Bastião, passando os dois dedos nos lábios, em gesto característico de vitória. Em troca disso, Cleves atendia Bastião em tudo que ele queria.

Aliás, Bastião e a mulher Mirtes – a doce Tia Mimi, a primeira professora de Cleves (e a sua terceira mãe) – adotaram o moleque após a morte de Nico, em 1965, quando o garoto tinha 15 anos.

            Vizinhos de parede e meia, Bastião e Mimi já tratavam o sobrinho Cleves como filho desde pequeno. O primeiro prato que Mimi preparava no almoço era o do moleque, o companheiro dos “irmãos” Zezé e Zé Milton, que são mais ou menos de sua idade.

            Viviam um pelo outro. Didi, o mais  velho dos filhos de Bastião, pagava os estudos de Cleves com o seu salário de professor de matemática do Ginásio. Ildeu, fazia o mesmo.

            Em troca disso, Cleves cuidada do balcão da padaria  para que os outros tivessem mais tempo para o estudo. Ildeu, muito namorador, logo foi para a universidade, em Viçosa, onde formou-se engenheiro.

            As cinco Marias de Mimi: Mirties, que tem o nome da mãe, Dodora, Gracinha, Tetina (Maria Ernestina) e Conceição, também foram para Viçosa onde tornaram-se normalistas.

    Celso, o segundo mais velho dos homens, foi ainda menino para o seminário  de Mariana, de onde saiu para fazer teologia na PUC, em Belo Horizonte. Abandonou o seminário, fez filosofia, e, mais tarde, formou-se em Direito.

    Era comum naquela época levar crianças para o seminário da Congregação Sacramentina, em Manhumirim, ou para o seminário de Mariana, o mais tradicional do Estado, sem levar em conta a questão vocacional. Por isso, poucos ordenavam-se padres.

    Mimi, que assinava Maria Mirtes, colocava os estudos em primeiro lugar. Filha única, estudou em colégio particular e formou-se professora, ainda muito jovem, quando casou-se com Bastião, falecido recentemente com mais de 90 anos. Era a cara de Nico.

            Voltando ao velho Nico, ele era uma figura sensacional. Gostava de filosofar. O que ele gostava não tinha preço. O resto era caro. Foi o que ele ensinou ao neto numa tarde bonita de outono, quando Neca Fortes, o único cambista da cidade, encostou a sua égua na porta da padaria para tentar vender para Nico um par de sapatos cromo alemão, da melhor qualidade, que recebera de presente de sua filha.

            Nico despachou Neca Fortes, dizendo que não tinha interesse no sapato, mesmo que fosse de graça, até porque também estava com a perna inchada como a do amigo e não queria saber de sapatos. Logo após a saída do cambista, chegou um caixeiro viajante e já foi logo medindo meio metro de fumo de rolo de Ubá, o preferido do comerciante.

            A medida era feita no balcão através de uma marcação com canivete. Nico pagou pelo produto, e assim que o vendedor saiu, o marceneiro Nenzinho Feijó, que acompanhara a negociação, questionou, irônico: “Não entendo você, Nico, deixa de comprar um cromo alemão na bacia das almas pra comprar esse pedaço de fumo fedorento”. No que Nico respondeu, exibindo o pedaço de fumo : “Disso aqui, Nenzinho, eu gosto; sapato, não! Aperta o meu calo”.

                   Nico era, de fato, uma figura fantástica. Já aos setenta anos,
“fazendo hora extra”, como dizia aos amigos, porque a idade média dos brasileiros naquela ocasião não passava dos sessenta, ele chamou Zé Grande, um antigo agregado da família, pau pra qualquer obra, e foram os dois para o cemitério.

                   Nico deitou-se na sepultura da família, mandou medir mais vinte centímetro nos pés e na cabeça, e ordenou que se fizesse o seu túmulo. Zé Grande e um pedreiro cumpriram a ordem, tijolo por tijolo, rebocaram a obra pintada de branco.

                   Nico retornou do cemitério feliz. “Minha casinha está pronta. Com mais seis carregadores chego na minha casa eterna”, dizia ele, feliz da vida. Supersticiosa, Ernestina não gostou do que viu. “Bobagem de Nico, cruz em credo”, benzia-se.

                   Todo dia Nico abria a padaria e ficava contemplando o seu túmulo que ficava debaixo de um frondoso pé de canela. Até que o padre Vandick Elias Gomes resolveu construir a nova catedral, tampando a visão “maravilhosa” que o velho Nico tinha de sua casa eterna.

                   Resultado: Nico parou de ir à Igreja. O padre foi saber o motivo e ouviu o que não queria. Para encerrar a refrega, Nico sapecou: “Também não estava adiantando nada eu ir à igreja, padre, porque essas beatas desocupadas que o senhor arrumou chegam primeiro e enchem a cabeça do santo de pedidos”.

                   Após a morte de Nico, Ernestina foi morar com os filhos e depois comprou um carnê do Silvio Santos para tentar ganhar uma casa. “Quero uma casinha para receber meus filhos, netos e bisnetos”, ela dizia, paparicada por todos. Morreu aos 89 anos escondendo idade. Tinha uma saúde de ferro.

             

A origem da família Silva Milagres

                   Estudos genealógicos sobre a família Silva Milagres, a primeira de Pedro Paulo da Silva, pai de Zezé, e a segunda de Antônio Rodrigues Milagres, pai de Olga (tomamos como referência os varões que na época cediam o sobrenome às esposas, e no caso dessas duas famílias, havia ainda parentescos entre eles), revelam que o ramo mais nobre dos Silva tem origem na Espanha, no período de dominação romana. No Brasil, o registro mais antigo é em São Paulo, da família Pedro da Silva, alfaiate que veio de Portugal por volta de 1600.

                   Já a família Rodrigues Milagres tem suas origens na pequena freguesia de Nossa Senhora dos Milagres de Cambeses, termo da Vila de Monção, na região do Minho, às margens do rio de mesmo nome, no extremo norte de Portugal, quase na divisa com a região espanhola da Galícia.

                   Cambeses é uma comunidade antiga, anterior a Portugal, enquanto reino unido e consolidado.

                   Ao contrário de outras famílias, os Milagres não possuem um brasão de armas, pois o sobrenome se deve a um fato de cunho religioso. Uma criança foi encontrada num cesto boiando em um rio de Cambeses e, devido ao milagre, deram-lhe este sobrenome.

                   Tornou-se Antônio Rodrigues Milagres. Ele casou-se com a valenciana Páschoa Lourença da Silva, filha de Domingos Lourenço, natural da freguesia de Santa Maria da Moreira, em Valença do Minho.

                   Este casal vivia em Cambeses, onde também nasceram os filhos e entre eles, o patriarca dos Milagres no Brasil, Luiz Rodrigues Milagres, que veio para cá em meados do século XVIII,  entre 1745 e 1749.

                   Segundo o historiador Joaquim Rodrigues de Almeida, no esboço genealógico publicado no livro Cartas ao Irmão, que trata da vida do Conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira, bisneto de Luiz Rodrigues Milagres, nosso patriarca era um reinol com sonhos de grandeza e de boa origem, que optou por vir para a região das minas de ouro.

                   Chegando em Minas Gerais, o jovem Luiz Rodrigues Milagres casou-se na Freguesia de Santo Antônio de Ouro Branco, por volta de 1750, com Eufrásia Maria de Jesus, natural de Ouro Branco, filha de Francisco de Sousa Lima, português e da brasileira Maria Gomes de Oliveira, natural de São Paulo.

                   A família Sousa Lima, que também se expandiu para a região de Ouro Preto e para a Zona da Mata mineira, teve grande projeção nas Minas Gerais. A partir deste casal, a grei dos Milagres  expandiu-se inclusive para outros estados.

                   O solar da Fazenda Boa Vista, em Catas Altas da Noruega, foi levantado por Luiz Rodrigues Milagres nas terras das quais comprou as posses. Contudo, não satisfeito, conseguiu aos 28 de setembro de 1753, carta de sesmaria de meia légua de terras, concedidas pelo governador da Capitania das Minas Gerais e Rio de Janeiro.

                   Segundo Joaquim Rodrigues de Almeida, Luiz Rodrigues Milagres e Eufrásia Maria de Jesus tiveram dez filhos, sendo quatro varões e seis mulheres, mas acredita-se tratar de um erro, pois em seu esboço genealógico, após essa informação, ele mesmo aponta os cinco filhos homens e apenas cinco mulheres, sendo iguais o número de filhos e filhas.

                   Contudo, outro genealogista famoso, o cônego Trindade, em sua obra Velhos Troncos Mineiros, no capítulo sobre a família Milagres, aponta o nome de outra filha de Luiz Rodrigues Milagres, chamada Ana Maria Milagres, casada e com pelo menos um filho padre.

                   Sendo assim, realmente o casal Luiz e Eufrásia teve onze filhos, sendo cinco homens e seis mulheres. Desde as origens, a família Milagres destacou-se na melhor sociedade das Minas Gerais, o que pode-se verificar pelo entrelaçamento de seus descendentes com famílias de destaque na história de Minas e do Brasil e alguns se destacaram inclusive internacionalmente.

                   Entre fazendeiros, militares, magistrados, políticos, religiosos, artistas, pessoas ligadas à cultura e à nobreza, mas também entre pessoas de origem humilde, os Milagres construíram uma história sólida, motivo de orgulho para seus descendentes, hoje em sua maioria pessoas simples e de bom coração, muitos com forte vocação religiosa. Temos como berço dos Milagres em Minas, durante o século XVIII, a região  formada pelos atuais municípios de Catas Altas da Noruega, Lamim, Itaverava, Senhora de Oliveira, Piranga, Rio Espera, Santana dos Montes, Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e Queluzito.

                   Contudo, no século XIX os atuais municípios de Carnaíba, Ponte Nova, Viçosa, São Miguel do Anta, Capela Nova, Ouro Preto, Mariana, Prados, São João Del Rei, Barbacena, Senhora dos Remédios e Juiz de Fora, além de outros, foram importantes na história da família.

Um tributo a São Miguel do Anta

 


Não poderia encerrar esse álbum de memória sem fazer um tributo a São Miguel do Anta, o berço dos Milagres das três gerações de nossa família.

           Primeiro, a sua história. Distrito de Viçosa e emancipado em 1953, tendo como interventor o Dr. José Luiz – e o primeiro prefeito Agostinho Pereira (1955-1958) –, a cidade nasceu em torno de uma capela  erguida em honra a Nossa Senhora da Conceição, em terras doadas por fazendeiros, no início do Século XIX. Entre os quais, o patriarca da família Pereira, Antônio Joaquim Pereira, que doou a primeira gleba.  

                   Ganhou o nome de São Miguel do Anta em homenagem a São Miguel Arcanjo, e Anta, porque a capela era ligada à paróquia de São Sebastião da Pedra do Anta.

                   Foi elevada a distrito da Freguesia do Anta, em 1857. A paróquia, criada em 1866, era ligada ao município de Ponte Nova. Conta-se que o farmacêutico  Ovídio Ferraz, filho do Coronel Antônio Dias Ferraz, chegou a viajar até o Rio de Janeiro para audiência com o então presidente da República Getúlio Vargas, em defesa dos interesses do lugar.                   Empossado em fevereiro de 1955, o prefeito Agostinho Pereira, cujo vice era José Lopes Soares, teve uma atuação marcante, não apenas por ter sido o primeiro prefeito da cidade, mas pela demonstração de força do Partido Republicano que fez praticamente todos os vereadores.Entre os nove eleitos, estavam  Sebastião Milagres (irmão de Olga), José Arsênio, Alberto Corrêa, do então distrito de Canaã; José Lopes, Joviano Lopes, o conhecido dentista Otacílio Fonseca, Ovídio Saraiva, Sebastião Lopes Bitarães e Geraldo Pereira Santiago, o Ladico, filho de Agostinho e eleito o presidente da Câmara.

                   Agostinho Pereira foi sucedido, na eleição de 1958, pelo seu filho Ladico, que ocupou o cargo de 1959-1962, tendo como vice-prefeito José Lopes de Souza.

                   O presidente da Câmara era o farmacêutico Dionísio de Paula Pinto, tendo entre os vereadores novatos, o comerciante  Manuel Rigueira, Nelito (que mais tarde veio a ser prefeito da cidade), e o clarinetista José Leão.  

                   Os prefeitos seguintes, todos em pleno regime de exceção, devido ao golpe militar de 1964, foram:  Alberto Corrêa (1963-1966), Nelito (1967-1970), Emílio Xavier Henriques (1971-1972), Ildeu Pereira Milagres Fialho (1973-1976), o farmacêutico Modesto Faria Lopes, o Dinito  (1977-1982), e novamente Emílio Henriques (1983-1988), que deixou o governo em pleno regime democrático, com o País tendo, inclusive, uma nova e moderna Constituição Federal.

                   Como se vê, pelo menos nos primeiros 20 anos de sua emancipação política e administrativa as famílias Pereira, Lopes, Ferraz, Rigueira e Milagres dominaram a política local, a maioria ligada ao Partido Republicano, de Arthur Bernardes, que mandava naquela região.

 

A força dos Pereira

 

                   Os Pereira fizeram três prefeitos (Agostinho, Ladico e Ildeu), sendo que outro filho de Agostinho, Etelvino Soares, o Vivino, além de vereador, foi duas vezes vice-prefeito, numa demonstração de força de uma família que cravou o seu nome na história do município.

                   Quando os Pereira não estavam no poder, tinham um dos seus no comando político do município, como foi o caso, por exemplo, de Alberto Corrêia, que foi buscado em Canaã para governar a cidade, visto que José Pereira Lélis negou-se a disputar a eleição em 1962.

                   Justiça seja feita, o Governo de Ladico Pereira foi histórico para o município, ao promover a primeira reforma da educação, com a inauguração do Grupo Escolar Juarez de Souza Carmo, tirando os alunos do primário (Ensino Fundamental) dos diversos imóveis alugados pela prefeitura para funcionar como salas de aula improvisadas, já que não havia grupo escolar na cidade. 

                   Os governos que vieram depois de Ladico tiveram grandes dificuldades, devido ao regime militar instalado com o golpe de 1964. O ex-prefeito Ildeu Pereira Milagres conta que a prefeitura era vigiada pelos espiões da ditadura que anotavam até os seus discursos, disfarçadamente.

                   O prefeito era obrigado a adotar a linha nacionalista e a política ufanista do “Milagre Brasileiro”, com bravatas e efusivos elogios ao presidente-general, do contrário, era retaliado. Podia até perder o mandato.  

                   Já Cleves relata que no final da década de 60, fora cooptado pelo comandante do destacamento militar da cidade para redigir, na máquina de escrever da PM, relatórios mensais ditados pelos milicos para serem enviados ao 9º Batalhão da PM de Barbacena.

                   Mal sabia o jovem que essas informações seriam compiladas  para abastecer o famigerado Serviço Nacional de Informação (SNI). Constava tudo no relatório, conta Cleves:

                   "Fiquei sabendo de muita coisa na cidade que nada tinha a ver com política, mas com a vida particular e até íntima de algumas famílias, como adultérios, troca de correspondências segredadas para falar de coisas bem pessoais como, por exemplo, a carta enviada por um conhecido morador casado a uma jovem, prometendo-lhe dinheiro e regalias, caso esta viesse a morar com ele escondido. Não vou citar nomes, porque nunca compactuei com este tipo de invasão de privacidade, mas a coisa era feia e o cabo ria enquanto ditava as besteiras. Um dia ele me disse, baixinho: "cê escreve muito bem, mas ouve pouco, tá entendendo o que quero dizer?" Respondi: "se não ouço, não ouvi nada e não sei de nada".

 

Princípios

 

                   Certo é que a  acolhedora São Miguel do Anta representa muito para todos nós. Pode ser apenas um ponto ínfimo no mapa  das Minas Gerais, mas para nós, descendentes de Zezé e Olga,  essa cidade representa o nosso berço.  Ali fomos criados, aprendemos os bons modos do povo pacato do interior, que beijava a mão do padre e pedia a benção aos mais velhos. 

                   Aprendemos  que era preciso  frequentar as missas dominicais, fazer o catecismo, ser crismado  e reconhecer os erros através das confissões e das comunhões. Aprendemos o que é a Eucaristia, muitos de nós fomos coroinhas.

                   Garotos de até 6 anos, como Cleves, quebraram pedras para a construção da nova Matriz, no final da década de 1950.

                   A meninada, como Dico Benevides, parceiro de Cleves no mutirão (cada dupla tinha o seu parceiro, um teria que estudar pela manhã e o outro à tarde, para o revezamento), fazia questão de  fabricar britas com marretas pesadas e até havia uma competição entre eles: quem, ao final do dia, tinha um monte maior era o campeão.

                   Tudo em nome da Nova Matriz. A molecada da época repicou sinos noite e dia durante uma semana pela morte do Papa Pio XII, em 1958.

                   Os moradores de São Miguel enfrentaram com dignidade o descasos do Poder Público Federal e Estadual, que simplesmente ignoraram os seus inúmeros problemas, pelos simples fato de ser um lugar sem maior importância para os políticos de fora.

                   A estrada que ligava o município a Viçosa, era puro buraco. No período das chuvas a cidade ficava ilhada. Não passava carro. O trecho somente foi asfaltado na década de 1990. Quanto sofrimento!  Aliás, o descaso não era somente com São Miguel.

                   Todos os municípios próximos, como Canaã, Pedra do Anta  e Araponga, onde fica o Parque Estadual da  Serra do Brigadeiro, um santuário ecológico de rara beleza, também foram e continuam sendo  ignorados.

                   Além do parque e suas matas atlânticas (mais de 40% da serra fica em seu município), Araponga teve papel importante na história política do País. Poucos sabem, por exemplo, que a cidade (na época um lugarejo) foi utilizada como o Quartel General da Resistência do ex-presidente Artur Bernardes, durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

                   Foi para lá que Bernardes mandou os seus aliados para, com o apoio de São Paulo, atacar o Rio de Janeiro e depor o presidente Getúlio Vargas. Bernardes e seus homens ocuparam Araponga, estrategicamente, porque ele sabia que em Viçosa ficaria mais vulnerável e Araponga ficava mais inacessível para os inimigos. 

                   Ali, Bernardes reuniu os jagunços para, com ajuda dos araponguenses, entre os quais mulheres, jovens e até crianças,  sustentar o seu levante na Zona da Mata Mineira. A resistência durou até que o governador de Minas, Olegário Maciel, determinasse a caçada ao "ex-presidente rebelde".

                   Araponga foi sitiada pela tropa governamental. Bernardes, na verdade, estava escondido em Viçosa, mas confundiu a tropa inimiga infindo que estava em Araponga.

                   Ele foi preso em setembro de 1932 na Fazenda da Luzia, propriedade mais tarde adquirida por Pedro da Silva e que serviu de moradia de Zezé e Olga, como já foi dito anteriormente.

                   Portanto, a região tinha e tem histórias  que poucos lugares no Brasil têm. Ainda assim, nem o asfalto ligando Viçosa a Araponga e, consequentemente, a Fervedouro – às margens da rodovia Rio-Bahia, já próximo ao Espírito Santo – saiu até hoje.

                   Imaginem quantos quilômetros economizaríamos de Viçosa ao litoral capixaba, passando-se por uma região histórica, que marcou politicamente o nosso País, e por um dos parques ecológicos mais importantes de Minas, pela sua beleza natural. 

                   A família de Zezé e Olga viveu esse tempo incólume das intempéries políticas – até porque eles nunca foram de se envolver em política, mas outras ramificações da família Silva e Milagres tiveram lá os seus rachas.  

 

A religiosidade             

 

  Quanto à religiosidade, as famílias participavam das quermesses  para as obras sociais, o Natal dos Pobres, a ajuda humanitária. Não havia essa de se cruzar com outra pessoa sem o cumprimento de praxe, “boa-tarde”, “bom-dia”, “boa-noite”, “boa-sorte”, “saúde para todos”, e por ai vai.

                   Na hora da Missa ou das procissões, fechavam-se as portas dos estabelecimentos comerciais. Os homens tiravam os chapéus para os cumprimentos, em todas as manifestações religiosas de rua.

                   havia no coreto ou na porta da Matriz aos domingos a retreta da centenária Corporação Musical Nossa Senhora da Conceição, com dobrados, valsas, polcas, hinos e até marchinhas de Carnaval, numa mistura do lúdico festivo com as músicas sacras.

                   No trombone de vara, Toninho Nelito, até hoje membro da corporação. Atualmente, a corporação é liderada por Toninho e busca maestro de fora que têm a difícil tarefa de mover a batuta que foi de Dionísio de Paula Pinto e do Aníbal, já falecidos.

                   Aliás, contam o bombardinista Onofre Brumano e Toninho, em um histórico resumido da banda, que lá pelos anos 40 e 50, a cidade chegou a ter duas bandas – a dos Pinto, getulista, e a Lyra Santa Cecília, bernardista, mas sem briga.

                   A vaidade ficava por conta das imponentes apresentações nas festas religiosas, como a do Santíssimo.

                    Passando de banda para futebol, tinha aos domingos o jogo no Alto da Conceição, campo do União Futebol Clube que já teve um timão, com Desusdeth, Nestor, Otacílio, Zé de Barba e Custódio Pereira; Simeão, Ferreira e Nitinho;  Paulo Arsênio, Antônio de Penha e Paulo de Nelito.

                   Jogava no 4-3-3, muito moderno para a época, já que a Seleção Canarinha fora bi-campeã Mundial no 4-2-4 meio maroto, porque Zagalo era mais volante do que ponteiro. Uma inovação do técnico Dinito, o Modesto Faria Reis.No mês de  maio – o Mês de Maria – era época das vias-sacras, coroações e o leilão beneficente na porta da igreja, comandado por Paulo das Dores. No final do leilão, lá pelas 23h, num friod anado, as canas eram arrematadas para os meninos e era aquela festa.

                   Paulo era uma espécie de sacristão pé-de-boi da igreja. Suicidou-se ainda jovem. Na hora da bênção, era um corre-corre danado para reabastecer o  turíbulo (ou incensório) de brasa no fogão da casa da Tia Mimi. De vez em quando um coroinha caía e espalhava brasa por todos os lados.

                   O turíbulo é uma espécie de esfera cortada ao meio, presa por três correntes. É utilizado com incenso na bênção ao Santíssimo. 

                   Certa feita, Luiz Paralelepípedo (tinha esse apelido porque seu pai fabricava paralelepípedo), um dos moleques mais travessos da cidade,colocou um traque no turíbulo. Quando o coroinha aproximou-se do padre Vandick Elias Gomes o troço explodiu, espalhando brasa por todos os lados. Coisas de São do Miguel.

                   Era divertido também as figuras folclóricas da cidade,  como o João Beraldo, o primeiro taxista do lugar. João tinha o hábito de descer do carro em local deserto e implorar aos Deuses para que alguém lhe desse alguma explicação sobre os enigmas religiosos, do tipo se a Terra era redonda mesmo ou se havia outro mundo além desse.

                   João era um homem calado e prestativo, muito importante para a cidade, pela sua dedicação ao ofício de taxista pau pra qualquer obra.  Quando brigava com a mulher Regina, ele dormia no carro. Calado, que é para a conversa não render.

                   Afinal, João, já falecido, era minoria em casa. Mandavam as mulheres.

                   Bastião Milagres, com as suas anedotas, atuou em todas as áreas; foi comerciante, “banqueiro”, representante comercial do Incra, com a distribuição do inseticida BHC (Benzene Hexachloride, em inglês) para a lavoura.

                   Foi um dos primeiros a incentivar o padre Vandick a construir a nova Matriz, arrecadando donativos num jeep candango pela roça afora.

 

A construção da nova Matriz

 

             No final da década de 1950, o falecido padre Vandick Elias Gomes, da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, de São Miguel do Anta, resolveu construir uma nova igreja.m da emancipação política e administrativa do então distrito de Viçosa, em 1953, a pequena população, de pouco mais de 2 mil habitantes, vivia dois momentos importantes: a eleição municipal, que elegeu Ladico Pereira o segundo prefeito da cidade, em substituição ao seu tio Agostinho Pereira, e a morte do Papa Pio XII, o que levou uma multidão de católicos à antiga matriz, que durante uma semana repicou os sinos dia e noite, anunciando o fim dos 18 anos de papado do primeiro pontífice romano desde 1724.
 

PROJETO


            O projeto da nova matriz era arrojado: seria uma arquitetura em estilo neoclássico, com a entrada principal em grego-romano e apenas uma torre em linhas retas. A estrutura teria dois pisos. O de baixo, seria um salão de projeções, duas ou três vezes maior do que o do cinema local, para a exibição de filmes épicos e cristãos (o advento do cinemaScope pela Century Fox, em 1953, talvez tenha levado o padre pensar nos filmes bíblicos para atrair ainda mais os católicos).
            O segundo piso seria o das celebrações, com teto em arco romano, sendo o do altar-mor de teto oval. Logo atrás, viriam os amplos alojamentos dos padres (anos depois, foi construído um novo alojamento com capacidade para quase 100 pessoas). 
Uma projeto gigantesco para uma cidade pequena, porém, de uma religiosidade extraordinária.
           A obra seria dividida em duas partes: primeiro, o serviço de terraplanagem para remoção do antigo cemitério que ficava aos fundos do grande adro, logo após o jardim. A demolição total da igreja velha deveria ocorrer somente após a finalização do primeiro piso, para não interromper as celebrações.
 

RECURSOS
 

          Mas como e de que forma seria possível arrecadar tanto dinheiro para uma obra tão grande e cara, num lugar pobre e sem nenhum recurso?
            Este era o grande desafio do padre e de seus festeiros. O município praticamente não gerava emprego e renda. A Prefeitura emprega poucas pessoas e tinha ainda o desafio de construir um Grupo Escolar para abrigar os alunos do ensino primário que estudavam em casas particulares espalhadas por toda a cidade.
Ladico Pereira já havia iniciado com o deputado majoritário da cidade, Juarez de Souza Carmo, uma promessa de se levantar recursos no Estado para a construção do grupo escolar. Seria a primeira e grande reforma do ensino no município.
          O máximo que o prefeito podia fazer para a igreja, era emprestar o trator-esteira para as obras de terraplanagem, e foi o que ocorreu.
Na verdade, a cidade tinha apenas três pequenas fontes de renda: uma, era o serviço público, restrito aos servidores da Prefeitura e os do Estado (as professoras primárias, 
principalmente); o comércio, que era fraco, e a agricultura, pequenos minifúndios e duas a três fazendas de maior porte que produziam cachaça, milho, feijão, leite, café e o hortifrutigranjeiro que dava pouco dinheiro, mas era o suficiente para a subsistência de muitas famílias.
 

AS DOAÇÕES
 

           O que fizeram o padre e seus principais festeiros, com o apoio das famílias mais tradicionais (Pereira, Milagres, Pinto, Lopes, Rigueira, Ovídio, Saraiva, Brumano, Mafia, Fonseca e os Silva de várias genealogias, além do libanês Aziz Salim, que embora fosse ateu, também colaborou coma obra): programaram um calendário de festas sem data para terminar, com quermesses, barraquinhas, bingos beneficentes, leilões de produtos doados pela comunidades nas vias-sacras do mês de Maio, o chamado Mês de Maria, e visitas a fazendeiros e demais proprietário de terras para colaborarem com o que pudessem para a igreja. Os eventos festivos eram abrilhantados pela apresentação da Corporação Musical Santa Cecília.
           Valia de tudo: doação de animais, de sacas de grãos, dinheiro, objetos, até cacho de banana e feches de cana, para leiloar. Lembro-me que, num dos leilões comandados pelo falecido Paulo das Dores na porta da igreja, a carcaça de um boi foi arrematada por um individuo e doada de presente a um homem que se sentiu ofendido com o chifre e deu a maior confusão.
Para facilitar as coisas, o padre aprendeu a dirigir e comprou um jeep candango que rodava praticamente dia e noite, ele e o meu tio Sebastião Milagres, atrás de doações na roça.
 

MUTIRÃO
 

          O resultado dessa empreitada foi fantástico: a obra era tocada à medida que o recurso ia sendo levantado, e o que é mais importante, com trabalhos voluntários, inclusive de pedreiro, servente, carpintaria, eletricidade,etc. As britas eram fabricadas pelos meninos de escola, que quebravam pedras o dia todo, divididos em turno: quem estudava de manhã, como eu, trabalhava à tarde, e vice-versa. Havia, até, uma competição para quem produzia mais.


           O mutirão varou anos e anos, até a igreja ficar pronta, num trabalho formiguinha exemplar em todos os sentidos. Não houve desvio de recursos, a obra tem uma estrutura para suportar dez vezes mais o seu peso, e a Matriz de Nossa Senhora da Conceição é hoje um orgulho dos são-miguelenses, sendo a fachada em grego-romana e as duas rampas o principal cartão postal da cidade.
Fico pensando: Ah, como me orgulho dessa minha cidade, pelo exemplo de solidariedade de seus antigos moradores, pelo caráter, a honestidade, a religiosidade, o princípio fraterno e a força de um gigante capaz de fazer o que parecia impossível uma realidade.
          O Brasil precisa de bons exemplos como este. Os políticos, principalmente.

 

   As histórias do Tio Bastião

 

 São Miguel, como toda cidade do interior, sempre teve muitas figuras folclóricas. Caso, por exemplo, de Bastião Milagres, o irmão mais chegado de Olga, não apenas pelo seu alto astral, mas, principalmente, por ter sido praticamente um pai de Cleves.

 
 

    Dono de uma memória invejável e um humor refinado, Sebastião Milagres, o Bastão – ou simplesmente Tatão, como era tratado por muitos – foi o irmão de Olga que mais marcou os filhos de Zezé e Olga, não apenas por ter sido o segundo pai de Cleves,  mas pela energia positiva de suas peraltices, o bom humor e o carisma de um homem que soube viver a vida com alegria.

            “Era o meu tio predileto, mas podia ter sido o primo ou o amigo travesso, porque Tio Bastião não tinha idade: era pura alegria o tempo todo. Um comediante mambembe e debochado”m descreve Cleves.

            Casado com a professora Mirtes Maria, a doce “Tia Mimi”, o casal teve dez filhos, cinco homens (Didi, Celso, Ildeu, Zezé e José Milton) e as cinco Marias (Conceição, Gracinha, Tetina, Dodora, e Mirtinha).

            Católica fervorosa, Tia Mimi batizou de Maria as suas filhas por recomendação da Irmandade Sagrado Coração de Jesus, ligada à Pia União das Filhas de Maria, de Viçosa.

            Em gesto de uma candura profana, Tio Bastião chamava as beatas de Maria Tanajura, “da bunda grande”, sapecava ele do balcão da padaria que ficava de frente da igreja, pouco se lixando se o freguês era ou não filho de alguma delas.

            Tia Mimi rabiscava o olho nele, de pura reprovação, mas não tinha jeito: Bastião era, realmente, um  homem indomável, nada parecido com a educação e os bons modos da mulher.

            Formada normalista em colégio interno, Tia Mimi transferiu para os filhos o hábito de estudar. Já Bastião, herdou a Padaria Santa Cruz do pai Nico Milagres, e ensinou-lhes caçoar da vida.

             Gostava de contar anedotas e de colocar apelidos nas pessoas. Anedotas, não, mentiras, histórias de sua imaginação que ele transformava em fatos reais com a habilidade de quem sabia como poucos interpretar as quimeras da vida.

            Contava casos da época que era jogador de futebol (nunca foi), “o melhor de São Miguel”; e, se preciso fosse, também piloto de avião, com renomada experiência em aviação civil. Entendia de tudo, até de alfaiataria. Aliás, difícil era saber da boca dele, o que ele não sabia fazer.

 Piloto de avião

            Certa feita, ele pegou um incauto que mal havia descido do ônibus e sapecou a mentira do dia. Disse que pegou um avião em Governador Valadares, rumo a Viçosa, e, ao ver que o voo estava demorando muito, apertou o piloto:

            “Já era pra ter chegado a Viçosa! Algum problema?”

            O piloto tentou enganá-lo, mas confessou ter perdido a rota.

            “Desce e pega a cabeceira do rio que vou te ensinar a chegar ao aeroporto, moro perto, conheço tudo ali”, ordenou.

            O freguês levou tanto susto que quase engasgou, mas não saiu de lá sem o arremate:

            “Viajei em pé porque o avião estava muito cheio”.

            O “faz tudo” da padaria, Zé Grande, o padeiro Lucas Garcês (já falecidos), e Pedro, de Olga, devem ter ouvido esse caso umas cem vezes. Zé ficava tão agitado com as mentira de Bastião (não podia rir) que enrolava a rosca conforme a velocidade do chute do patrão.

Rachando o ébano

            Um dia, irritado com Bié, falecido picador de lenha da padaria, que não conseguiu rachar o tronco de uma árvore, ele mandou o ajudante buscar  o machado e a cunha.

            “Cê vai cortar???”, quis saber Zé Grande, com olhar de espanto.

            “Numa machadada só”.

            Era um pedaço de ébano com um nó de quase 40 centímetro. Bastião colocou a cunha, mirou o machado e advertiu:

            “Sai fora que vai voar cavaco pra todo lado”.

            Zé Grande saiu correndo e quando voltou não achou ninguém. Bastião foi atender no balcão e deixou a tarefa pra depois.

Elefante

            O implacável Bastião Milagres não perdoava ninguém. Nem os próprios familiares. Pior é que não havia escapatória, porque o apelido que dava às pessoas virava nome de batismo, tal era o seu poder de persuasão e de formar opinião.

            Até as suas mentiras, por mais absurdas que fossem, viravam assunto do dia, sempre contadas com o humor pastelão de quem sabia caçoar com as pessoas sem magoá-las.

            Tia Mimi tinha sempre um sorriso amarelo para as piadas do marido travesso. Também pudera. Ela era exatamente o contrário de Bastião. Não contava mentira e nem gostava de brincadeiras de mau gosto. Seu negócio era dar aula, cuidar dos estudos dos filhos e receber pessoas em casa. Criou, como se fossem seus filhos, muitos rapazes e moças, sem qualquer objeção do marido que também gostava da casa cheia.

             

            Cleves era igual filho. Seus avós maternos, com quem foi criado, moravam de parede e meia com Bastião, de modo que o menino mais ficava na casa do tio do que na dos avós. Com a morte de Nico, em 1965, ele se mudou de vez para a casa dos tios.

            Atropelado por um caminhão aos 7 anos de idade, Cleves virou o alvo predileto de Bastião, devido a uma amnésia que demorou anos para melhorar.

 

 

            Esquecia tudo. Bastião mandava comprar arroz e eu trazia feijão. Ao invés de raiar, ele dava boas gargalhadas e espalhava a gafe para tudo mundo ouvir.

            O problema desapareceu com o tempo, mas continuou martelando na cabeça do tio. Muitos anos depois, já repórter, ele provocou o tio sobre a declaração de um renomado editor  que escrevera, no prefácio de um dos livros de Cleves, que ele tinha memória de elefante.

            “Elefante?!”, questionou mordaz o tio, “quem disse pra você que elefante tem cérebro? Tem que te internar”, baforejou, zoando com a cara do sobrinho para todo mundo ouvir.

            “Cê não tem memória, isso sim!” – e toma risada.

Marimbondos

            Às vezes, o tio se comportava como uma criança. Um dia, isso na década de 1960, ele chamou Luiz Paralelepípedo (tinha esse nome por conta do ofício do pai que quebrava pedras para calçar a cidade), e cochichou no seu ouvido.

            Luiz era um  garoto hiperativo, para não dizer doido. Costumava explodir dinamites nas galerias de água pluvial da cidade para ver a fumaça saindo pelos bueiros. Havia uma caixa de marimbondo no alto de uma das janelas da igreja e Bastião estava de olho nela.

            Havia sussurrado no ouvido do moleque o pedido para que ele jogasse a caixa pra dentro da igreja, em troca de  uma gorjeta.

            Luiz pegou um bambu e cutucou tanto a caixa até jogá-la pra dentro da igreja. Foi uma confusão medonha, gente correndo pra todo lado, e Bastião morrendo de rir.

            Na verdade, eram abelhas inofensivas, ele sabia disso.

            O falecido taxista João Beraldo falou que Luiz teria que confessar ao padre a arte, porque aquilo era pecado. A verdade é que João também correu dos “marimbondos” e ficou nervoso.

            Bastião chamou o menino e aconselhou:

            “Tem que confessar tudo. Só isso não adianta. Piora”.

            Como Luiz fazia arte o dia todo, achou melhor não entregar Bastião para o padre, até porque, o tio era muito amigo do sacerdote. Mais tarde, eles se desentenderam, mas isso deve ser algum segredo de ofício.

Feio e desempregado

            Aliás, os feios e as feias sofriam na sua boca. Não podia ver um por perto que comentava, despretensiosamente, às vezes sem olhar para o infeliz:

            “Pra arrumar emprego na capital, hoje em dia, tem que ter boa aparência. Se não for bem aparentado, tá desempregado. São Miguel tem muitos desempregados para muito tempo”, pestanejava, sem dó e nem piedade.

            Quando um ou outro retrucava, ele saia com essa:

            “Uai, Cê é feio? Sabia não!”, e dava aquela gargalhada gostosa.

            Arrumava namorada e namorado pra todo mundo, “casava” as pessoas e debochava na cara delas, na maior tranquilidade, como se isso fosse a coisa mais normal da vida.

Tudo era brincadeira, mas ele falava sério e regozijava irreverente, pouco se lixando se a pessoa gostou ou não do que ouviu. Ria tanto de suas peraltices que, às vezes, engasgava com o pigarro do cigarro fedorento.

“Cego não vê”

            Nem a cegueira, já no final da vida, tirou o seu humor. O genro Carlos Alberto conta que bastião aprendeu rápido a usar a deficiência visual para brincar com a vida.

            Certa ocasião, ele noticiou, da varanda de sua casa, onde normalmente ficava caçando conversa com as pessoas, que um conhecido morador havia falecido naquele momento.

            Fizeram uma verdadeira romaria à casa do falecido e descobriram que era tudo mentira. Carlos Alberto repreendeu-o pela brincadeira de mau gosto, mas não saiu ileso:

            “Me contaram aqui, ó, falaram que ele morreu...”

            “Quem falou, Bastião?”, quis saber o genro.

            “Como vou saber quem falou, se cego não enxerga?”

 

     O padre, com  os seus devaneios, foi outro personagem importante para o lugar, onde ficou mais de 50 anos. Fazia da homília dominical um “sermão” . Diziam até que ele se valia dos segredos do ofício para “bater na cangalha” dos pecadores.

   O filho de Bastião, Celso Milagres, produziu uma peça de teatro “Os olhos que eu matei” que fez muito sucesso no cinema do Aziz e nas cidades vizinhas, para onde a “companhia” viajava.     

    Rememorar as histórias de São Miguel do Anta é viajar no tempo com aquele gostinho de quero mais.  Não vamos aqui nominar as famílias mais importantes da cidade em meados do século passado, para não cometer injustiça, porque havia os homens importantes, politicamente, e outros importantes, pelo trabalho anônimo na ajuda humanitária.

      Uns mais discretos, outros mais em evidência. Muitos moravam na roça e nem na cidade iam direito. Mas criaram famílias maravilhosas. Poderíamos dizer que os Pereira, Milagres, Rigueira, Pinto, Ferraz, Lopes e Brumanos são os mais conhecidos, mas tem a família de Aziz Salim, por exemplo, que mesmo não mexendo com política, deu à cidade um de seus homens mais importantes, que foi Aziz, o dono do cinema e de quase tudo no lugar, durante um bom tempo. São clãs de gente que escreveram e continuam escrevendo a história de São Miguel, a cidade natal de Zezé e Olga.

          

 
 
 
 
 

Os 86 anos de minha mãe

 

 

 


 



 

 

 

Juiz diz em ato de repúdio contra atentado sofrido por promotor que tem  medo de ter medo

 

    O Ministério Público de Nova Lima, na Grande BH, realizou um ato público nesta sexta-feira, 27, em repúdio ao atentado sofrido no final da semana passada pelo promotor Marcus Vinício de Ribeiro Cunha, alvejado com uma saraivada de tiros numa emboscada praticada por um ex-vereador e seu filho, na cidade de Monte Carmelo, no Alto Paranaíba.

    O evento foi organizado pela titular da 2ª Promotoria de Justiça, Elva Cantero, com a participação das promotoras Andressa Lanchoti e Shirley Fenzi Bertão, vice-presidente da Associação Mineira do Ministério Público (AMMP), além do juiz da comarca Juarez Morais de Azevedo, que representou a Associação dos Magistrados Mineiros (AMAGIS).

    O ato público ocorreu simultaneamente a diversos outros realizados nas comarcas do Estado, por iniciativa do Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), a Associação Mineira do Ministério Público (AMMP), a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (CONAMP), a Procuradoria-Geral de Justiça de Minas Gerais (PGJ-MG), o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e a Associação dos Magistrados Mineiros (AMAGIS).

    Para a promotora Elva Cantero, o desagravo serve “para uma reflexão sobre a função do Ministério Público na sociedade brasileira: a de auxílio na construção de um país democrático de direito”. E completou:

    “Se nós, que somos juízes, promotores e políciais, somos intimidados, ameaçados e, às vezes. violentados, imaginem o que pode acontecer com o cidadão comum?”, indagou, perplexa, a promotora.

    O juiz Juarez Azevedo destacou de improviso que o Poder Judiciário não se curvará diante das ameaças e intimidações e conclamou a todos – juízes, promotores e policiais – a se unirem para combater o crime organizado que infesta o País.

Azevedo exemplificou casos concretos de ameaças às autoridades em sua comarca e se perguntou: “o medo que temos que ter é de ter medo, mas tem hora que temos medo de ter medo, e isso é ruim para a sociedade”.

    A promotora Shirley Fenzi enfatizou que o seu colega Marcus Ribeiro foi atacado covardimento pelo criminoso ao sair do serviço, “às oito horas da noite de um sábado, em pleno exercício de sua função”.

    E detalhou o atentado:

    “O promotor entrava no carro quando o agressor se aproximou dele e disparou vários tiros em sua direção; Marcus curvou-se dentro do carro, e no que o homem foi trocar o pente da arma, ele fugiu, mesmo ferido, correndo em zigue-zague com o agressor atirando em sua direção”.

Marcus refugiou-se em um estabelecimento comercial e o suposto autor dos disparo, Juliano Aparecido de Oliveira, e seu pai, Valdelei José de Oliveira, foram presos horas depois numa operação policial.

    Valdelei era presidente da Câmara dos Vereadores da cidade quando foi investigado e cassado por fraude em licitação, numa ação comandada pelo promotor em 2013, numa bem-sucedida operação que ficou conhecida como “Feliz Ano Novo”.

    O evento serviu para recordar outros atentados ocorridos em Minas, como o que resultou na morte do promotor Francisco José Lins do rêgo, o Chico Lins, executado em 25 de janeiro de 2002 quando investigava uma quadrilha que fraudava combustível.

 

 

Promotor Marcus Ribeiro foi baleado por vereador cassado por fraude em licitação

Afastamento de vereador

acirra disputa pela nova

Mesa Diretora da Câmara

Afastamento temporário de Coxinha, do grupo do candidato oposicionista Zé Guedes (DEM), e posse da suplente Babá (PRTB), que apoia Ângela Lima para a presidência, altera o quadro para a disputa da nova Mesa Diretora e causa revolta na oposição que acusa o presidente Nélio Aurélio de arbitrariedade. Briga pode parar na justiça.

    A eleição da nova Mesa Diretora da Câmara Municipal de Nova Lima promete pegar fogo dia 1º, quando serão escolhidos os novos dirigentes do Poder Legislativo para o biênio 2015-2016.

    A disputa se acirrou nesta semana, quando o presidente Nélio Aurélio (PMDB), que apoia a candidata de seu partido Ângela Lima para a presidência, afastou do cargo o vereador oposicionista Alessandro Coxinha (PRTB), do grupo do candidato democrata Zé Guedes.

    Coxinha é acusado de decoro parlamentar por agressão física a uma médica, conforme processo movido pela vítima na justiça, e de “duplicidade de vencimentos”, ao receber salários da prefeitura, mesmo na condição de vereador.

    O afastamento de Coxinha ocorreu durante tumultuada reunião e revoltou a oposição que acusa o presidente de abuso de poder ao “transgredir as normas da casa para afastar o vereador e levar vantagem na eleição para a nova Mesa Diretora”.

    Nélio Aurélio se defende das acusações, afirmando que agiu de acordo com o Regimento Interno da Câmara e da Constituição Federal.

    “Abri a reunião com 10 vereadores. Quando a oposição viu que seriam lidas as duas denúncias contra o vereador Coxinha, simplesmente abandonou o plenário, como o fez das vezes anteriores, imaginando que isso impediria a continuidade dos trabalhos legislativos, o que não foi o caso”, conta o presidente Nélio Aurélio.

“Amparado pela lei”

    Com 5 vereadores em plenário, e “amparado pelo quórum mínimo de plenário, previsto em lei”, Nélio afirma que deu continuidade aos trabalhos, visto que a reunião fora aberta com a presença dos 10 vereadores.

    “Fizemos a leitura das denúncias, sorteamos as duas comissões que investigarão se houve ou não quebra de decoro parlamentar contra o vereador Coxinha e dei posse à suplente Babá (Babá Couto (PRTB)”, resume Nélio Aurélio.

    O presidente nega qualquer ligação entre o afastamento de Coxinha e a eleição da nova Mesa Diretora, alegando que tudo não passa de uma grande coincidência, mas a verdade é que o grupo apoiado por ele vai para a eleição do dia 1º mais fortalecido.

    A disputa pela presidência da Casa estava dividida ao meio, com 5 vereadores de cada lado, mas como Guedes é mais velho, levava vantagem na disputa com Ângela Lima.

    Porém, com o afastamento de Coxinha e a posse de Babá, que apoia a situação, a candidata Ângela Lima, líder do governo, passa a ter maioria dos votos (seis ao todo), contra os 5 de Zé Guedes, pelo menos este é, teoricamente, a prévia da eleição.   

 

 

 

Família Milagres, do patriarca Antônio Rodrigues Milagres, realizará o seu primeiro encontro em São Miguel do Anta.

 
 
 

            A família Milagres, do patriarca Antônio Rodrigues Milagres, Nico (1890-1965), realizará dia 3 de janeiro, em São Miguel do Anta, o primeiro encontro da família, tendo como oganizadores os descendentes do clã Sebastião Milagres (1918-2010) e Mirtes (1916-2002). 

            Nico, descendente de portugueses da região de Cambeses (divisa de Portugal com a Espanha) e Ernestina (1891-1980), uma cafuza mestiça da família Fialho, casaram-se em 1906, em Pedra do Anta, na Zona da Mata Mineira, onde tiveram os primeiros filhos.

            O casal mudou-se para São Miguel onde fundou a centenária Padaria Santa Cruz, durante anos sob o comando de Sebastião que fez parte da emancipação do município, em 1954, e da primeira legislatura da Câmara Municipal dos Vereadores.Foi, também, um dos pioneiros na construção da nova matriz de Nossa Senhora da Conceição, cujas obras tiveram início no final da década de 1950, sob o comando do Padre Wandick Elias Gomes.

           Sebastião viveu a vida toda em São Miguel, ao contrário dos irmãos Antônio (falecido aos 21 anos, na década de 1920), Braga, Júlia,  Edgar, Neli (todos também  já falecidos), e Olga, que vive hoje em Timóteo, aos 85 anos.

Todos os filhos de Nico e Ernestina  tiveram família numerosa, a exemplo de Sebastião e da professora Mirtes (da tradicional família Pereira), pais de Didi, Celso, Ildeu, Conceição, Gracinha, Tetina, Zezé, Dodora, José Milton e Mirtes Maria, criados e formados em São Miguel.

            Única filha viva de Nico e Ernestina – e matriarca dos Silva Milagres (casou-se com Zé da Silva,em 1945) – Olga Milagres, mãe de 11 filhos, 22 netos e 11 bisnetos, é aguardada com grande expectativa neste encontro de sua família.

Entre parentes de 1º e 2º graus e os afetivos, a família conta com mais de 200 membros espalhados por diferentes regiões do Estado.

 

Dados do evento e convite


"A união da Família Milagres representa as nossas origens com a benção de Deus"

 

Para revivermos a alegria dos nossos antepassados e relembrarmos a felicidade das festas e dos convívios é que estamos convidando todos da Família Milagres, descendentes de Antônio Rodrigues Milagres (Pai Nico) e de Ernestina Fialho de Resende (Mãe Tetina), para o Primeiro Encontro da Família Milagres, que se realizará em São Miguel do Anta - MG, no dia 03 de janeiro de 2015.

Contamos com a presença do maior número possível de descendentes/agregados (esposos-as e namorados-as), pois estamos preparando uma festa bem legal para brindarmos a alegria de estarmos juntos com os nossos familiares.

 

 

Data:

- 03 de janeiro de 2015 à partir das 18:00 horas

 

Local do encontro:

  

Buffet Balança -  Fazenda Balança em São Miguel do Anta (regado a muita comida, muita bebida, muita música e muita alegria).

 

  Valor: em torno de R$ 95,00/pessoa (crianças menores de 10 anos estarão isentas)

Opcional (para todos aqueles que residem ou forem pernoitar em S. Miguel e que forem viajar na tarde do domingo):

- Almoço no domingo, dia 4, no Buffet Balança à partir das 13:00 horas (valor R$ 30,00/pessoa,  bebida alcoólica não incluída).

 

 

RELAÇÃO DE HOTEIS   - aqueles que desejarem se hospedar em São Miguel ou Viçosa, terão as seguintes opções para fazerem as reservas:

 

- São Miguel do Anta

Hotel Dubosque – Tel: 31 7155 1132 (Vivo)

                                     31 3897 1469 (Oi Fixo)

Valor: 30,00 a 50,00 reais.

 

Pousada Tropical (mais simples) – Tel: 31 8343 9713 (Claro)

                                                               31 9668 2224 (Vivo)

Valor: 20,00 reais.

 

- Viçosa

Vivant Suites Hotel – 31 3891 1999 – Diária: R$ 168,00/casal

www.vivanthotel.com.br

recepção@vivanthotel.com.br

Rua dos Estudantes, 75 - Centro

 

    INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

Prazo para confirmar presença: Impreterivelmente até 03/12/1914 com Ilmara Gláucia:

e-mail: ilmaragalaucia@yahho.com.br

31 9655 4035 (Vivo)

31 8444 9278 (Claro)

31 3897 1278 (Oi Fixo)

Como é difícil fazer camisetas para serem usadas durante o evento que agradem a todos, sugerimos que todos venham com camisa/camiseta/blusa/vestido branco, pois faremos um “Boton” alusivo ao encontro para ser colado na roupa.

Pagamento : até o dia 10/12/2014 diretamente para Ilmara ou depositar em nome de:

Ilmara Glaúcia Milagres Moreira

Banco do Brasil – Agência: 0428-6 – Conta corrente: 66 180-5

 

                    A família

                       

                             Estudos genealógicos revelam que a família Rodrigues Milagres tem suas origens na pequena freguesia de Nossa Senhora dos Milagres de Cambeses, termo da Vila de Monção, na região do Minho, às margens do rio de mesmo nome, no extremo norte de Portugal, quase na divisa com a região espanhola da Galícia. Cambeses é uma comunidade antiga, anterior a Portugal, enquanto reino unido e consolidado.

                 Ao contrário de outras famílias, os Milagres não possuíam até então um brasão de armas, pois o sobrenome se deve a um fato de cunho religioso. Uma criança foi encontrada num cesto boiando em um rio de Cambeses (Portugal) e, devido ao milagre, deram-lhe este sobrenome. Tornou-se Antônio Rodrigues Milagres. Ele casou-se com a valenciana Páschoa Lourença da Silva, filha de Domingos Lourenço, natural da freguesia de Santa Maria da Moreira, em Valença do Minho. Este casal vivia em Cambeses, onde também nasceram os filhos e entre eles, o patriarca dos Milagres no Brasil, Luiz Rodrigues Milagres, que veio para o Brasil em meados do século XVIII,  entre 1745 e 1749.

                   Segundo o historiador Joaquim Rodrigues de Almeida, no esboço genealógico publicado no livro Cartas ao Irmão, que trata da vida do Conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira, bisneto de Luiz Rodrigues Milagres, nosso patriarca era um reinol com sonhos de grandeza e de boa origem, que optou por vir para a região das minas de ouro. Estabelecendo-se nas Minas Gerais, o jovem Luiz Rodrigues Milagres casou-se na Freguesia de Santo Antônio de Ouro Branco, por volta de 1750, com Eufrásia Maria de Jesus, natural de Ouro Branco, filha de Francisco de Sousa Lima, português e da brasileira Maria Gomes de Oliveira, natural de São Paulo.

                   A família Sousa Lima, que também se expandiu para a região de Ouro Preto e para a Zona da Mata mineira, também teve grande projeção nas Minas Gerais. A partir deste casal, a grei dos Milagres  expandiu-se inclusive para outros estados. O solar da Fazenda Boa Vista, em Catas Altas da Noruega, foi levantado por Luiz Rodrigues Milagres nas terras das quais comprou as posses. Contudo, não satisfeito, conseguiu aos 28 de setembro de 1753, carta de sesmaria de meia légua de terras, concedidas pelo governador da Capitania das Minas Gerais e Rio de Janeiro.

                   Segundo Joaquim Rodrigues de Almeida, Luiz Rodrigues Milagres e Eufrásia Maria de Jesus tiveram dez filhos, sendo quatro varões e seis mulheres, mas acredita-se tratar de um erro, pois em seu esboço genealógico, após essa informação, ele mesmo aponta os cinco filhos homens e apenas cinco mulheres, sendo iguais o número de filhos e filhas. Contudo, outro genealogista famoso, o cônego Trindade, em sua obra Velhos Troncos Mineiros, no capítulo sobre a família Milagres, aponta o nome de outra filha de Luiz Rodrigues Milagres, chamada Ana Maria Milagres, casada e com pelo menos um filho padre. Sendo assim, realmente o casal Luiz e Eufrásia teve onze filhos, sendo cinco homens e seis mulheres. Desde as origens, a família Milagres destacou-se na melhor sociedade das Minas Gerais, o que pode-se verificar pelo entrelaçamento de seus descendentes com famílias de destaque na história de Minas e do Brasil e alguns se destacaram inclusive internacionalmente.

                   Entre fazendeiros, militares, magistrados, políticos, religiosos, artistas, pessoas ligadas à cultura e à nobreza, mas também entre pessoas de origem humilde, os Milagres construíram uma história sólida, motivo de orgulho para seus descendentes, hoje em sua maioria pessoas simples e de bom coração, muitos com forte vocação religiosa. Temos como berço dos Milagres em Minas, durante o século XVIII, a região  formada pelos atuais municípios de Catas Altas da Noruega, Lamim, Itaverava, Senhora de Oliveira, Piranga, Rio Espera, Santana dos Montes, Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e Queluzito.

                   Contudo, no século XIX os atuais municípios de Caranaíba, Ponte Nova, Viçosa, São Miguel do Anta, Capela Nova, Ouro Preto, Mariana, Prados, São João Del Rei, Barbacena, Senhora dos Remédios e Juiz de Fora, além de outros, foram importantes na história da família.

 

 

 

 

 

Juiz Juarez Azevedo completa 

23 anos de Comarca em 

Nova Lima como um dos 

mais importantes do País

 

     

    O juiz criminal Juarez Morais de Azevedo (na foto acima durante recebimento do Prêmio Innovare 2011 da ministra do STJ  Nancy Fátima Andrighi) completou nesta quinta-feira 23 anos de serviços prestados à Comarca de Nova Lima, na Grande BH, onde ingressou em 1991 e tornou-se um dos mais respeitados magistrados de Minas.

      Estudioso do sistema penal brasileiro, Azevedo fundou em 2004 a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC-NL), hoje referência em todo o território nacional.

      A prática APAC valeu-lhe o Prêmio Innovare 2011, um dos mais importantes do País na área jurídica, pela sua contribuição na humanização do sistema e na redução dos índices de criminalidade no País.

      Modelo de cadeia sem polícia e de autogestão, a APAC tem como filosofia fazer com que o recuperando – como são chamados seus internos – deixem o sistema melhor do que quando entrou.

      Esta é a principal bandeira de Azevedo na Comarca, onde acumula a função de juiz da Infância e da Juventude, também com vários trabalhos científicos reconhecidos nacionalmente neste setor.

Buscando soluções

     Outra obra de vulto de Azevedo é o Instituto Nova-limense de Estudos do Sistema Penitenciário (INESPE), do qual é presidente e fundador. O instituto tem como objetivo inovar e aperfeiçoar o complexo sistema penal brasileiro.

     O núcleo de pesquisa do ins-tituto é formado por vários observatórios e promove palestras com importantes autoridades do meio jurídico sobre a causa e efeito da violência e da criminalidade urbana, através de convênios com a Faculdade de Direito e Administração da Milton Campos, com a Faculdade de Enge-nharia e Arquitetura da FUME e está fechando outro convênio com a Faculdade de Comunica-ção da PUC-MG.

    Segundo pesquisas do INES-PE, uma das principais causas do aumento da criminalidade no País está no modelo ultrapassado de penalizar o condenado. Na opinião de Azevedo, não basta privar a liberdade, mas reeducar o preso para que ele seja devolvido à sociedade melhor do que quando entrou no sistema.

Centro de estudo do preso

    Atualmente, o INESPE está investindo na construção do Museu do Preso onde será construído um centro de estudo multidimensional do sistema penal que visa reduzir a reincidência e a criminalidade e baixar o custo operacional de manutenção do encarcerado.

    Geridos pelo instituto, os observatórios deste Centro de Estudo do Preso contribuirão para qualificar e formar profissional do sistema penal brasileiro.

    Autor de vários artigos e estudos sobre o sistema penal vigente, Azevedo tem tra-balhos divulgados nos principais meios jurídicos do País e diz que gosta tanto de Nova Lima que não deixaria a cidade por nada.

     Natural de Muriaé-MG, Juarez Azevedo é casado com Nídia Perez Morais há 35 anos, com quem tem três filhos: Ana Carolina (advogada), Ana Katherine (funcionária pública) e Álvaro Azevedo (administrador de empresas e servidor público municipal). O casal tem ainda dois netos: Vinícius e Maria Eduarda.

 

Protestos em Nova Lima

Reajuste não é votado

e servidores tentam

invadir o Plenário

 
 
A promotora Ivana Andrade, em recente encontro com o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Dinis Pineiro, teve decisiva atuação no processo de cassação do prefeito de Nova Lima, Cássio Magnani Junior
Promotora Ivana Andrade, em recente
encontro com o presidente da Assembleia 
Legisaltiva, deputado Dinis Pinheiro, teve 
atuação decisiva na cassação do prefeito de Nova
Lima, Cássio Magnani Junior.
 
 
José Cleves
 

    Falta de quorum e protestos do público presente  obrigaram o presidente em exercício da Câmara Municipal de Nova Lima, Alessandro Coxinha (PRTB), a suspender a reunião extraordinária desta sexta-feira (25/4), quando seria votado o projeto do Executivo que previa reajuste de 12 e até 20% para os servidores públicos municipais.

    Disposto a retirar o projeto de pauta por recomendação da promotora de Defesa do Patrimôio Público,  Ivana Andrade Souza, que classificou o reajuste de ilegal, Coxinha mal abriu a sessão e notou que não tinha vereadores suficientes para continuar com os trabalhos.

    O presidente aguardava o tempo regimental para a entrada dos vereadores ausentes quando um grupo de manifestantes representando os servidores ameaçou invadir o plenário, obrigando-o a suspender a  reunião que não tem data para continuar.

     O ofício com a recomendação do MP foi enviado ao presidente licenciado, Nélio Aurélio, que assumiu interinamente a Prefeitura, e ao seu substituto,  Alessandro Coxinha, bem à véspera da reunião.

    Para o Ministério Público, o reajuste é ilegal por inflar os gastos com pessoal além do previsto em lei. Na justificativa do projeto, o ex-prefeito Cassio Magnani Junior (PMDB), que deixou o cargo nesta quarta-feira por determinação da Justiça Eleitoral, calculou em 42% o percentual de gastos com a folha de pagamento, conforme previsão orçamentária de 2014, que é de R$ 720 milhões.   O máximo permitido pela LRF é de 54%. 

    O MP alega, no entanto,  que o orçamento de R$ 720 milhões inclui os recursos extras e não apenas a receita corrente. Em 2013, a previsão orçamentária do município foi de R$ 360 milhões, mas fechou o ano com quase R$ 500 milhões, devido a parcelas de uma dívida antiga da Vale com os municípios mineradores. Já para este ano, a previsão foi ainda mais otimista, elevando o orçamento para R$ 720 milhões.

    Caso os reajustes fossem aprovados pela Câmara, os gastos com as despesas de pessoal chegariam a R$ 297 milhões. O equivalente a 82%, se a base de cálculo fosse no orçamento anterior.

   Como a reunião suspensa, o assunto fica adiado para a próxima terça-feira, quando os vereadores se reunião ordinariamente para decidir se votam ou não o reajuste.

    O projeto de reajuste chegou à Câmara dia 22, um dia antes da deposição do prefeito Cassinho que teve seu mandato cassado com perda dos direitos políticos por oito anos, pela  justiça eleitoral. O novo prefeito Vitor Penido classifica o reajuste de oportunista e como uma vingança do ex- prefeito para inviabilizar o seu governo.

Lei prevê vários benefícios

    Além do reajuste de 12% para a maioria dos servidores e de 20% para os assistentes administrativos, o projeto prevê vários outros benefícios que no entendimento do Ministério Público incidirão sobre os gastos com  pessoal. São eles: reajuste de 20% do valor nominal do vale refeição; licença remunerada para o servidor com doença grave na família; 100% de horas extras para os servidores convocados para trabalhar em dias declarados ponto facultativo; 10% de reajuste sobre o piso salarial do servidor ocupante de cargo efetivo de professor de educação física; revisão do vencimento do servidor apostilado cuja categoria  profissional pertença o caro efetivo beneficiado com o reajuste de seu piso e alteração para doze por 60 da carga horária dos motoristas de ambulância.

 

Nélio assume interinamente

a Prefeitura de Nova Lima.

Posse de Penido será dia10

Troca de poder foi tensa na Prefeitura nesta terça-feira.

    O presidente da Câmara de Nova Lima, Nélio Aurélio de Souza (PMDB), assumiu interinamente nesta terça-feira o cargo de prefeito de Nova Lima, em substituição a Cássio Magnani Júnior (PMDB) que deixou o cargo, juntamente com a sua vice Fatinha Aguiar (PT), por determinação da Justiça Eleitoral.

    A interinidade de Nélio tem previsão de durar até o dia 10, quando a Câmara dará posse ao novo prefeito Vitor Penido (DEM) que já foi diplomado pelo TRE nesta segunda-feira, no cartório eleitoral da comarca.

    Tão logo o acórdão da sentença foi publicado, Cassinho entrou com pedido de liminar para permanecer no cargo até a decisão final do Tribunal Superior     Eleitoral (TSE), mas teve que aguardar a resposta fora da Prefeitura.

    A mudança do poder ocorreu poucos minutos antes do meio dia, após intensa movimentação na Prefeitura para que a ordem do TRE fosse cumprida.

    Cassinho e a sua vice foram cassados  pela justiça eleitoral de primeiro e segundo graus por abuso de poder econômico. A dobradinha PMDB-PT teria sido beneficiada por decretos de cessão de uso de terrenos em troca de votos assinados pelo ex-prefeito Carlinhos Rodrigues (PT).

Confusão

    Amparado pela lei que diz que no caso de vacância do cargo de prefeito, assume o presidente da Câmara dos Vereadores, Nélio Aurélio foi cedo para a Prefeitura para assumir o lugar de Cassinho.

    Para surpresa sua, o prefeito estava reunido com todo o seu secretariado. O Procurador da Prefeitura, Castelar Guimarães, levou o vereador para a sua sala e pediu-lhe paciência para tentar resolver o problema.

    Após longa conversa com Cassinho, o procurador retornou dizendo que o prefeito estava disposto a deixar o cargo, desde que a resolução que dava posse a Nélio fosse aprovada em plenário da Câmara.

    O vereador bateu o pé dizendo que não aceitava isso, porque, segundo disse ao procurador,  o TRE determinava o afastamento imediato do prefeito e a posse do presidente da Câmara.

    -Quero o cumprimento da lei – insistiu Nélio.

    Diante do impasse, o presidente acionou a Polícia Militar para registrar um Boletim de Ocorrência com “o descumprimento da lei pelo prefeito”. O BO seria     entregue à Justiça Eleitoral pára as providências de praxes.

    “O prefeito não quer largar o osso”

    Mesmo informado pelo procurador da Prefeitura de que Cassinho não estava revestido do cargo de prefeito, mas em reunião com os secretários para saber o que fazer, Nélio continuou reticente.

    -Cassinho quer é ganhar tempo para esperar a liminar, mas eu tenho o que fazer e preciso cumprir as ordens do TRE. Aliás – prosseguiu o presidente da Câmara – o prefeito não quer largar o osso, é isso”, ironizou.

    Depois de muitas idas e vindas, Nélio decidiu caminhar para o primeiro andar, onde fica o gabinete do prefeito, acompanhado dos vereadores Ângela Lima (PMDB), Alessandro Coxinha (PRTB), José Guedes (DEM) e André Vieira (PRB) e Silvânio Aguiar (PT), que chegou depois.

    A interlocução de Nélio com a recepção, foi áspera:

    Ele pediu a presença imediata de Castelar Guimarães e ao receber a resposta de que o procurador pediu que aguardasse mais um pouco, Nélio soltou os cachorros:

    -Diz para ele (Castelar) que o seu chefe sou eu, sou o prefeito e quero a presença dele aqui agora”, ordenou Nélio, impaciente.

    Enfim, prefeito

Momentos após, chegou o procurador da Câmara, Luciano Augusto de Freitas, informando que já estava tudo decidido e que o prefeito deixaria a Prefeitura naquele instante.

Os secretários começaram a sair e Nélio foi chamado para ocupar o gabinete do prefeito, o que fez acompanhado dos vereadores presentes. Advertido pela assessoria de Cassinho de que somente ele deveria entrar, Nélio retorquiu impaciente:

-Os vereadores têm direito de entrar porque este é um ato da Câmara. Eram exatamente 11h58m quando Nélio, enfim, ocupou o gabinete do prefeito, pondo fim ao impasse que durou mais de 2h. 

 

Primeiro ato será desafetação 

de terreno para a construção 

do novo prédio da Câmara

Projeto deverá ser aprovado na reunião da câmara que tem novo presidente

    O primeiro ato de Nélio como Prefeito interino de Nova Lima deverá ser a assinatura da lei que desafeta uma área verde no bairro Oswaldo Penna Barbosa para a construção do novo prédio da Câmara.
    O projeto deverá ser votado na reunião ordinária desta terça-feira que será comandada pelo seu novo presidente, Alessandro Coxinha. Ele terá como vice, Ângela Lima.
    A expectativa é de que a reunião trate apenas da votação da resolução que empossa Nelio como prefeito interino de Nova Lima e deste projeto do novo prédio da Câmara.
    Mas,segundo os bastidores, não está descartada a possibilidade de Nélio tomar outras decisões importante. Um acoisa é certa: ele não vai exonerar nenhum secretário, como  vem sendo falado na cidade.
    
 

Penido e Luick são

diplomados pelo TRE.

Cassinho aguarda resposta dos embargos no cargo.

 
 
    O deputado federal Vitor Penido (DEM) foi diplomado pelo TRE como o novo prefeito de Nova Lima, em substituição a Cássio Magnani Junior (PMDB). Penido e seu vice, Luciano Luck (PSL), receberam os diplomas da Justiça Eleitoral no cartório eleitoral da comarca nesta segunda-feira, às 17h, em cerimônia rápida e simples.
    A defesa de Cassinho entrou com embargos logo após a publicação do acórdão que confirma a cassação da chapa situacionista eleita em outubro. Os dois e o ex-prefeito Carlinhos Rodrigues (PT) perderam ainda os seus direitos políticos por oito anos.
    O prefeito reuniu-se na manhã desta terça-feira com todo o seu secretariado para traçar a estratégia da defesa. A expectativa na Prefeitura é de que o TSE acate o pedido de liminar que será feito logo após a finalização dos embargos, para que Cassinho permaneça no cargo até a decisão final de Brasília.
    Enquanto isso, o presidente da Câmara, Nélio Aurélio (PMDB), está de sobreaviso. Dependendo do que for decidido nas próximas horas, ele poderá asumir a Prefeitura, interinamente, até que a Câmara dê posse a Penido, como determina a Justiça Eleitoral.
    Cassinho e Fatinha  tiveram a chapa eleita em outubro casada pela Justiça Eleitoral em primeira e segunda instância por apuso de poder econômico. Eles teriam sido beneficiados pelo então prefeito Carlinhos Rodrigues que assinou vários decretos de cessão de uso de terrenos públicos em troca de votos, segundo entendimento da justiça no processo movido pelo DEM contra a eleição da chapa.

 

 

Juiz ameaçado de morte em Minas é referência no Brasil

·         Postado por jose cleves da silva em 18 fevereiro 2014 às 0:00

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Juiz Juarez Azevedo durante

 recebimento do Prêmio Innovare 2011

 

     

     Com 80 mil habitantes, um orçamento para este ano de R$ 720 milhões e o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Minas, Nova Lima, na Grande BH, vive o seu inferno astral, com a política local em pé-de-guerra.

     Depois de cassar o prefeito eleito, Cássio Magnani Junior (PMDB), e sua vice, Fatinha Aguiar (PT), por irregularidades na eleição, o juiz Juarez Morais de Azevedo está ameaçado de morte e pediu proteção do Tribunal de Justiça.

     O magistrado estaria numa lista de “marcados para morrer” que corre de boca em boca na cidade, e, embora duvide das ameaças, decidiu tomar as suas precauções.

     A experiência no manuseio de uma boa arma, da época em que era delegado de polícia, ajuda na segurança individual. E por recomendação do  TJ, o juiz alterou também a sua rotina de trabalho, pela primeira vez em quase 30 anos de comarca.

     Também o deputado federal Vitor Penido (DEM), segundo candidato mais votado nas últimas eleições e eventual sucessor do prefeito, caso a sentença seja confirmada em instância superior, também se diz ameaçado de morte.

      O parlamentar acionou o Ministério da Justiça e está com a sua segurança reforçada. Ao contrário do juiz, que diz não saber de onde vem as ameaças, o parlamentar não esconde as suas convicções.

    “São os meus adversários; eles não se conformam com a derrota na justiça e estão me ameaçando de morte”, afirma Penido, que já foi quatro vezes prefeito da cidade que ele pretende governar pela 5ª vez.

Suborno

    Na mesma semana, o presidente da OAB local e sub-procurador da prefeitura, Léo Alves de Assis, é visto em um vídeo entregue à polícia da capital tentando subornar uma testemunha, “com o propósito de tumultuar o processo” que se encontra em grau de recurso no Tribunal Regional Eleitora (TRE).

    A gravação do vídeo foi feita pela própria testemunha, Davidson de Almeida, com o uso de uma microcâmera instalada num relógio de pulso. O DVD com a filmagem está sendo periciada pela polícia científica que poderá ou não confirmar a sua autenticidade.

    Davidson receberia “um bom café” e oito anos de emprego garantido para dizer que ele e o Pastor Durval, da Igreja Quadrangular, receberam dinheiro para denunciar, em outro vídeo também de sua autoria, a compra de votos praticadas pelo ex-prefeito Carlinhos Rodrigues.

    A denúncia de compra de votos é uma das peças-chaves do processo, juntamente com os decretos de doações de terrenos à véspera da eleição.

Um juiz acima de qualquer suspeita

     Tido como um dos juízes mais respeitados de Minas, autor de vários estudos sobre o sistema penitenciário e defensor intransigente do método APAC (cadeia sem polícia), que recuperou dezenas de presos na comarca nos últimos anos, Azevedo está pagando pelo excesso de zelo e a ética.

     Respeitado pelos protagonistas do processo, Vitor Penido, várias vezes prefeito da cidade, e o advogado Cássio Magnani Junior, com quem se encontrava quase que diariamente no Fórum, Azevedo poderia ter se declarado impedido de julgar a causa de um contra o outro, mas não fugiu da responsabilidade.

     Acatou a denúncia do Ministério Público Estadual (MPE) favorável à demanda de Vitor Penido contra Cassinho, que teria sido favorecido pelo seu antecessor, Carlinhos Rodrigues, acusado de compra de voto para beneficiar o seu candidato, e tocou o processo, como se não conhecesse as partes.

    “Eu não fujo de minhas obrigações, jamais”, disse-me certa feita o magistrado, que nunca escondeu a sua admiração pelos dois candidatos. Julgou o caso conforme a sua convicção e se diz tranquilo quanto ao desfecho do processo no TRE.

    “O Tribunal pode manter a minha sentença ou reforma-la, para mim não faz muita diferença; isso é comum no Poder Judiciário. O importante é o dever cumprido”, analisa o magistrado que não se diz arrependido de ter pego a causa.

    “Triste eu estaria se não tivesse aceito este desafio”, confessa.

Prêmio Innovare

    Prêmio Innovare 2011 (inclusão social), recebido no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo seu trabalho de recuperação dos presos na APAC que ajudou a fundar na cidade, Azevedo é ainda presidente-fundador do Instituto Nova-limense de Estudos do Sistema Penitenciário (Inespe), cuja meta é a humanização dos processos penais e uma sociedade mais segura.

    O lema do Inespe se baseia no princípio APAC de que o preso tem que sair do sistema melhor do que quando entrou. Os números da APAC-NL obtidos por Azevedo são impressionantes: 6% de reincidência (contra 85% da média nacional), e um salário mínimo/mês de custo do preso (contra R$ 2 mil da média nacional).

    O instituto é um verdadeiro laboratório para estudos do sistema penitenciário, com seus observatórios e eventos voltados para o tema, e tem uma visão holística e difusa que lhe permite elaborar pesquisas e estudos científicos capazes de tirar do buraco o caótico sistema prisional do País.

    Este é o legado de Azevedo, um juiz que aprendi a admirar após os meus 60 anos de idade e 40 de profissão, sem ter conhecido outro igual. Talvez por falta de oportunidade, mas garanto que são poucos como ele no Brasil. Não é justo duvidar de um homem assim.

 

 

Livro sobre a vida de meus 

pais será lançado em breve

     Já está praticamente no prelo o meu terceiro e mais importante livro – Retratos de Uma vida – um relato fiel sobre a história de vida de meus pais, Zezé e Olga, que se casaram em 1945 e  criaram uma família maravilhosa, com 11 filhos, 22 netos e 7 bisnetos,  e mais de 100  parentes por afinidades (primos, sobrinhos, tios, etc).

   Escrevo a  história de minha família para servir de exemplo às futuras gerações. A lição de vida de nossos pais, que passaram por cima de toda a sorte de dificuldades sem perder a ternura e a dignidade,  mostra que a vida é feita de desafios e somente com o trabalho honesto, fé em Deus e devoção pelos pais, é possível ter uma família honrada.

    Esta é a herança que recebemos deles e que pretendemos deixar para os nossos descendentes, como um patrimônio da família que custou muito caro, como poderá ser constatado no livro que escrevo na segunda pessoa, como um observador privilegiado desta maravilhosa história de amor.

    Meu pai, um simples candeeiro e ex-recruta do Exército que por pouco não foi parar na guerra, e minha mãe, moça prendada e de boa família, provaram que unir a família e fazer amizade são os melhores investimentos do mundo.

    Meu saudoso pai faleceu em 206, aos 82 anos. Minha mãe, com 84 anos, e "voando baixo",  assumiu a condição de matriarca da família que ela continua "criando"   com a mesma vitalidade e honestidade de sempre. O comando é seu e nós pedimos a sua bênção, sempre!

CURIOSIDADE

    Ao montar a árvore geneológica de nossa família, deparei com uma extraordinária coincidência. Meu avô paterno, Pedro da Silva, tem o mesmo nome do primeiro Pedro da Silva registrado no País, em 1600, e o  avô materno, Antônio Rodrigues Milagres, é também homônimo do patriarca da família, o primeiro a usar o sobrenome Milagres, dado pelos pais, após receber uma graça divina, em Cambeses, divisa da Espanha com Portugal, no Século XVII.

    A edição virtual, com arquivo aberto, de modo a permitir o acesso dos demais familiares para adicionar novas informações à obra, deverá ficar pronta nos próximos dias. A impressa está prevista para meados deste ano. Este periodo de maturação do livro tem como objetivo fechar o seu conteúdo com o máximo de informação e precisão.

 

 

 

 

Suspeição injusta

 

José Cleves

 

Lí com inegável desprazer a nota divulgada na coluna da jornalista Raquel Faria, do jornal O Tempo, onde diz que a defesa do prefeito Cassinho (PMDB) estaria preparando documentos contra o juiz Juarez Morais de Azevedo no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), alegando que o magistrado foi parcial na sentença que cassa o mandato do prefeito, para proteger o filho, Álvaro Azevedo, que é suplente de vereador pelo DEM. Creio que há algum mal entendido nessa informação. Primeiro, porque as partes tiveram tempo suficiente para  requisitar o afastamento do juiz no processo. Não o fizeram porque não quiseram. Segundo, porque, em tese, a sentença prejudica o rapaz que ocupa cargo de confiança no Governo Cassinho. Portanto, se alguém tivesse que declarar suspeição, o coerente seria a petição partir da defesa de Penido, ou estou errado? Outra coisa, Cassinho advogou muitos anos no fórum e conhece mais do que ninguém o caráter de Azevedo, um dos magistrados mais corretos de Minas. Eu diria do Brasil, porque lido com o Poder Judiciário há mais de 40 anos e conheci poucos juízes como o seu temperamento de total independência. Admiro-o pela retidão. Sempre que posso,  troco nem que seja um dedo de prosa com ele e nunca, em tempo algum, duvidei de sua postura austera e a inconfundível organização no trabalho. Certa ocasião,  ele me disse, referindo-se ao seu filho: “Eu sou o juiz e meu filho, um cidadão”. Ou seja, não se pode misturar as coisas. Creio que o melhor que Cassinho tem a fazer, é brigar pelos seus direitos, porque a sentença é de primeiro grau e cabe recurso. Azevedo tem um caráter inabalável, mas é humano. E se falhou na sentença, com alega dos cassados, ela será reformada. Qual o problema? Aliás, quando fiquei sabendo que o DEM moveu a ação que pedia a cassação do diploma da chapa Cassinho-Fatinha, pensei com os meus botões: “Pobre do juiz, qualquer que for a sua decisão, vai ter barulho”. Até porque, o que nunca passou pela minha cabeça foi a possibilidade, ainda que remota, de Azevedo abandonar o processo. Este não é o seu feitio. Ele não é homem de correr da responsabilidade. Eu também não correria. Agiu pela razão e não pelo coração, tenho absoluta certeza disso. E digo mais: Azevedo é um grande admirador de Cassinho e não faria mal algum a ele. Cumpriu a lei, conforme o seu entendimento.

 

Amagis defende atuação de juiz de Nova Lima

A Associação dos Magistrados Mineiros vem a público contestar insinuações maldosas e irresponsáveis com relação ao trabalho isento, correto e íntegro do juiz Juarez Morais de Azevedo, da 194ª Zona Eleitoral, da Comarca de Nova Lima.

Em seus 23 anos de atuação naquela Comarca, o magistrado sempre julgou com imparcialidade, respeitando o amplo direito de defesa, além de cumprir as leis e a Constituição. Aos inconformados com algumas de suas decisões, é facultado o direito de recorrer a instâncias superiores, como é o devido processo legal. 

 

Belo Horizonte, 24 de outubro de 2013

Herbert Carneiro

Presidente da Amagis

 

 

 

Os 25 anos da CF de 1988

José Cleves

Comemorou-se neste dia 5 (sábado passado), 25 anos de promulgação da Constituição Federal de 1988, da qual me orgulho de ter participado como repórter constituinte dos principais jornais do País, porque não escrevia apenas para o Correio Braziliense, Estado de Minas, Última Hora e Jornal de Brasília (com quem tive vínculos trabalhistas neste período), mas para vários outros veículos, já que eu praticamente morava dentro do Congresso Nacional. Chegava por volta das 8h e saía, às vezes, 2h da madrugada. Cheguei a colaborar, inclusive, com o Comitê Interamericano de Direitos Humanos, que estava muito interessado na elaboração do capítulo sobre direitos e garantias fundamentais (artigos 5º ao 17º). Era comum a abordagem de correspondentes das principais agências de notícias internacionais da época, como as norte-americanas Thomson Reuters Corporation e United Press International (UPI), alem da francesa Agence France-Presse (AFP), consideradas, juntamente com  Associated Press, as maiores agências de notícias do mundo. Muitas delas tinham sucursais espalhadas pelo Brasil, inclusive em Belo Horizonte. As notícias eram enviadas via telex (Código Morse). Aliás, o meu amigo José de Souza Castro escreveu um belíssimo ensaio jornalístico sobre o fim das sucursais e a importância  dessas agências de notícias internacionais no Brasil pós-Segunda Guerra Mundial. Os jornalistas estrangeiros faziam muitas perguntas sobre os dispositivos constitucionais que bloqueavam qualquer tipo de golpe e jogavam pesado contra os crimes de tortura e as ações armadas contra o estado democrático. Queriam saber como a Assembléia Nacional Constituinte trataria esses assuntos. Justiça seja feita, Tancredo Neves foi o grande responsável por essa Constituição, ao lado de Ulysses Guimarães. Tão logo se candidatou presidente da república, Tancredo deu uma entrevista coletiva afirmando que mais importante do que ter um presidente civil, é a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte. E que, se eleito, a convocaria imediatamente. Participei dessa entrevista e sou testemunho  desse juramento. Ele foi eleito em janeiro de 1985, adoeceu em março (véspera da posse) e morreu em abril, mas ficou o legado. O presidente José Sarney  (1985-1990) honrou a promessa.  Por tudo que representa para o Brasil essa nova era constitucional – e pela luta que foi para a sua elaboração –, refuto, do alto de minha insignificância, qualquer critica à nossa CF. Ela significa a vitória da democracia brasileira e é, sem dúvida, uma das mais modernas e representativa do mundo. Quando Ulysses Guimarães a promulgou, na minha frente, chorei de emoção 

Recursos pedem

pela permanência

do prefeito Cassinho

 

José Cleves

 

Somente na segunda-feira, com o retorno do juiz eleitoral Juarez Morais de Azevedo, que está fora da comarca, é que a Justiça vai analisar a enxurrada de recursos ordinários e embargos interpostos contra a sentença que pede a cassação do prefeito Cássio Magnani Junior (PMDB) e de sua vice Fatinha Aguiar (PT), que perderam também os direitos políticos por oito anos.

O ex-prefeito Carlinhos Rodrigues entrou com embargos de declaratórios contra a sentença, alegando que houve “parcialidade, contradição e premissas equivocadas” na cassação de seus direitos políticos.

A promotora Ivana Andrade Souza foi a primeira a entrar com  embargos contra o efeito suspensivo na sentença. O argumento é de que essa seria uma atribuição do Tribunal de Justiça (TJ), e não do juiz de primeira instância.

Já Cassinho e a sua vice Fatinha Aguiar – e o próprio PT – entraram com pedidos de nulidade da sentença e a reforma de seu mérito, tendo como argumento a “ausência de provas” de que os atos do ex-prefeito favoreceram a eleição da chapa situacionista.

O PT alega parcialidade do juiz que, conforme a defesa do partido, teria que ter se declarado impedido de julgar o caso, anexando ao processo várias fotos e documentos para reforçar o seu pedido de revisão do mérito da sentença.

Prazos

Também o PMDB, partido de Cassinho, entrou com pedido de assistência ao prefeito no processo, para acompanhar o seu andamento na esfera judicial.

A juíza eleitoral substituta, Myrna Souto, se declarou impedida de julgar os recursos e embargos, “por uma questão de fórum íntimo”, e não quis dar entrevista sobre o caso.

Com isso, somente na segunda-feira, com a chegada do juiz titular Juarez Morais de Azevedo, os pedidos terão andamento.

Pela lei, após o julgamento dos embargos, os requerentes terão 72h para entrarem com recursos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

                Opinião

O juiz Juarez Morais de Azevedo é muito acreditado em Nova Lima, onde está há quase 30 anos, pela ética, correção e  absoluta isenção em suas sentenças. Quem o conhece sabe disso. Se o TRE ou o TSE reformar a sua sentença, como deseja o prefeito Cassinho e a sua vice Fatinha Aguiar – e a torcida deles não poderia ser diferente –, não será novidade para ninguém, porque este é um fato normal no Poder Judiciário, o mais democrático e justo dos poderes da República. O que não acreditamos, de forma alguma, é na possibilidade, ainda que tênue, de o juiz ter agido por dolo, passionalidade ou parcialidade em seu veredicto, como afirmam alguns, porque Azevedo é um magistrado legalista que não mistura as coisas. Ele nunca escondeu a sua admiração por Penido e Cassinho que, por questões políticas, se tornaram partes opostas de uma demanda judicial indigesta. A sua sentença não é definitiva e será analisada pelos desembargadores do TRE e talvez até pelos ministros do STE, que podem ter um entendimento diferente da causa, mas isso em nada mudará o respeito que temos pelo juiz. Somente quem tem a prerrogativa da sentença sabe como é difícil a busca da verdade.

 

 

 

 

 

Última Hora

Justiça Eleitoral

Cassa Cassinho

e a vice Fatinha

 José Cleves

A  Justiça Eleitoral de Nova Lima-MG cassou nesta segunda-feira (23) o mandato do prefeito Cássio Magnani Junior (PMDB) e de sua vice, Fatinha Aguiar (PT), bem como os seus direito políticos por oito anos, pena essa também aplicada ao ex-prefeito Carlinhos Rodrigues (PT), que apoiou a chapa, conforme sentença proferida pelo juiz da 194ª Zona Eleitoral da Comarca, Juarez Morais de Azevedo.

A sentença, com 75 páginas, foi protocolada na secretaria do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) da cidade por volta das 17h30. Os acusados têm 72h, a partir da notificação da sentença, para recorrer da decisão de primeira instância no TRE. A ação foi movida pelo DEM e seu concorrente à chapa situacionista, Vitor Penido de Barros que, uma vez confirmada a sentença, deverá retornar à prefeitura para o seu 5º mandato.

A expectativa é de que até o final do ano o caso seja julgado pelo TRE. Em caso de manutenção da sentença, Penido terá que renunciar ao cargo de deputado federal para assumir a prefeitura de Nova Lima, após a sua diplomação pela Justiça Eleitoral. Como cabe recurso, Cassinho certamente que recorrerá a Brasília, mas fora da prefeitura, porque a decisão colegiada do TRE exige a imediata aplicação da lei.

É importante ressaltar que a setença proferida pela Justiça Eleitoral de Nova Lima não é de cassação do prefeito Cassinho, mas de impugnação da chapa apoiada pela prefeitura que teria praticado atos ilícitos para beneficiar a coligação que elegeu o novo prefeito e a sua vice, que por esse motivo, perde também o cargo.

Caso Cassinho tivesse obtido o mínimo de 50% dos votos, o TRE convocaria outra eleição. Mas como isso não ocorreu, assume a prefeitura o segundo colocado nas eleições, que foi Vitor Penido.

Cassinho se diz tranquilo

 Mesmo surpreso com a decisão, Cassinho reagiu com tranquilidade diante da condenação. Amigos e assessores do prefeito informaram à nossa reportagem que ele pretende dar continuidade na sua administração à frente do Executivo Municipal, enquanto aguarda a decisão da justiça.

"Cassinho está bem, chateado, mas convicto de sua inocência", disse um de seus assessores.

O resultado da sentença motivou algumas comemorações isoladas em diversas regiões do município. Na Praça Bernardino de Lima, onde fica o Fórum e a Prefeitura, um grupo se reuniu perto da Câmara e soltou rojões, com palavras de ordem. Houve um  pequeno buzinaço e o footing normal de pessoas mais preocupadas em comentar o assunto do que comemorar ou protestar.

Penido: "Vitória foi do povo"

Já o deputado federal Vitor Penido recebeu a setença com um misto de euforia e pé no chão.

"Não foi uma vitória minha, do deputado Vitor Penido, mas do povo de Nova Lima. Cargo eu já tenho", comemorou o parlamentar, lembrando que não houve surpresa na decisão da justiça "pela robustez das provas e a seriedade da justiça de Nova Lima", afirmou.

Mesmo poupando o prefeito Cassinho de criticas, Penido admitiu que o erro na campanha foi compartilhado.

"Não tenho o que falar de Cassinho, mas ele foi um produto da máquina que o apoiou e baixou 89 decretos de doações de imóveis para beneficiar a campanha, mesmo tendo o prefeito da época assinado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) no Ministério Público se comprometendo a não fazer isso; ninguém pode ganhar uma prefeitura dessa forma", condenada o parlamentar.

Penido diz que esses decretos eram tão imorais, segundo ele, que o próprio prefeito Cassinho os revogou.

"Cassinho não poderia ter revogado esses decretos, porque foi um problema da aministração anterior; se ele revogou, é porque estava tudo errado e isso foi a comprovação do crime", espeta Penido

Leia a sentença no www.anoticianovalima.com

 

Opinião

A boa alma de Cassinho o livra de muita coisa, mas a guerra agora é contra a sentença. Não vale o “Só sei que não sei”

José Cleves

Não vamos discutir o mérito da sentença proferida pela Justiça Eleitoral de Nova Lima, que cassou o mandato e os direitos políticos do prefeito Cassinho e de sua vice, bem como de seu antecessor, Carlinhos Rodrigues, todos eles colocados no mesmo grau de culpa pelos eventuais abusos cometidos na campanha que resultou na vitória da chapa situacionista. Os acusados têm amplo direito de defesa no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e podem, até, reverter a situação, porque a sentença não é definitiva. Mas não se iludam. Não será fácil a ninguém derrubar a sentença do juiz Juarez Morais de Azevedo, conhecido pelas suas decisões legalistas e sempre muito bem fundamentadas. Portanto, não adianta ir para o muro de lamentações e espernear no facebook, como temos visto por ai, achando que vai sair de lá perdoado por Deus, porque tudo que ilude, encanta, e nada nos afasta mais do conhecimento do que o pseudo-conhecimento (Sócrates). A parada no TRE será terrível para os acusados. Não adianta esse negócio de jogar a culpa no outro, porque enquanto houver culpa, haverá condenação. A tese da defesa terá que ser baseada no grau de influencia dos atos do governo passado no resultado da eleição. O Ministério Público disse que houve benefício compartilhado e a justiça acatou esse posicionamento da promotora Ivana Andrade Souza, que por sinal havia decretado tolerância zero para os crimes eleitorais, bem antes do pleito. Portanto, no entendimento da Justiça Eleitoral, houve uma ação compartilhada dos envolvidos, de modo a obter vantagens nas urnas. Ou seja, todos se beneficiaram do ato coletivo, ainda que um ou outro desconhecesse tudo que foi feito na campanha, porque importa à Justiça Eleitoral o resultado final – o alvo dessas ações e a quem elas interessavam. Uma coisa é certa: ninguém pode duvidar do caráter e da honestidade de Cassinho, homem probo e muito respeitado, que merece as nossas considerações. Mas não será fácil para ele se livrar dessa enrascada. Entendemos, até, que não ficaria bem ao atual governo despejar terra sobre o túmulo de Carlinhos Rodrigues, como vimos na nota divulgada pela prefeitura à imprensa, porque essa é uma estratégia equivocada e de revelado grau de ingratidão. Se é verdade que a caneta de Carlinhos Rodrigues beneficiou a sua eleição, como afirma a justiça, resta a Cassinho derrubar o ato ilícito com argumentos robustos, porque o “Só sei que não sei”, tão amplamente explorado nas obras de Platão (e nos autos do Mensalão), nos remete à fábula do devorador de sanduíche que nega tê-lo degustado, talvez pela origem desabonadora de quem o serviu.

 

O PT partido e esfacelado

José Cleves

A agonia lenta do PT em Nova Lima é apenas um retrato do que vem ocorrendo com o partido no País. Mesmo saindo vitorioso como coadjuvante do PMDB na última eleição para prefeito, a estrela vermelha fez jus ao nome e partiu em várias partes. Aliás, o desmanche petista na cidade foi previsto por nós à véspera das eleições de outubro de 2012, quando aconselhamos o então prefeito Carlinhos Rodrigues a não lançar um candidato próprio, sob pena de uma derrota acachapante. Dividido em vários pedaços e sem as mínimas condições de controlar a sua vaidade, o PT foi para a eleição, aos trancos e barrancos, reassumiu a prefeitura com Fatinha Aguiar de vice e fez dois vereadores. Em termos quantitativos, foi até bem. Mas na prática, é um motor envelhecido e sem partida. Fatinha, como todo vice, é apenas uma sombra de Cassinho. Partidariamente, fica no limite de uma militância desunida. Os dois vereadores da sigla, Flávio de Almeida e Silvanio Aguiar, são ovelhas desgarradas.  Carlinhos Rodrigues virou um caudilho solitário, sem força na prefeitura, que comandou durante dois mandatos, embora seja, ainda, a única estrela a brilhar dentro do partido. Tem luz própria, mas seu futuro político é incerto. Para piorar a situação da estrela vermelha na cidade, o PMDB, da vitoriosa dobradinha de 2004, 2008 e 2012, caminha  para uma nova parceria com o PSDB. Se isso de fato ocorrer, restará ao PT as cacarias do PCdoB e meia dúzias de partidos pequenos e insignificantes. Aliás, assim caminha o PT no País. Xodó do trabalhismo e de intelectuais do período pós-ditadura, o Partido dos Trabalhadores foi longe com a sua gangorra, até alcançar a autofagia de uma sigla carcomida pelo xiitismos e maniqueísmo das décadas de 80/90. A picada mortal do mosquito azul, com o Mensalão, na década seguinte, foi o tiro de misericórdia nas pretensões de seus seguidores. A melancolia somente não o levou ao óbito, pela incrível resistência de alguns de seus ícones, como Lula, que não depende de sua cangalha para puxar o carro. Por conta dele, o PT resiste em Brasília e pode até renovar a permanência de Dilma Rousseff no Planalto. Isso, se o barbudo continuar com a estratégia de andar com Deus e a “coisa ruim” ao mesmo tempo, sem pudor e vergonha na cara

 

A creche dos meus sonhos

 

José Cleves

Estive dias atrás no Centro de Convivência da Creche Comunitária São Judas Tadeu, no Jardim Canadá,  e confesso que fiquei encantado com o que vi.  Dizem que é a maior do Estado em regime integral (7 às 17h30m) para crianças de quatro meses a 12 anos. É um modelo inovador de creche-escola, onde os alunos acima de 7 anos são levados para o ensino fundamental fora e buscados para completarem o dia na creche. Fundada em 1995  pelo vereador Flávio de Almeida, a entidade possui sede própria e vive de doações da comunidade e apoio da Prefeitura que são suas mantenedoras. Os projetos sociais da São Judas Tadeu extrapolam a sua finalidade base. Já encaminhou, por exemplo, mais de 500 jovens dependentes de drogas para tratamento em clínicas conveniadas. Algo simplesmente extraordinário. Essa creche me fez lembrar três personalidades que marcaram época na história do Brasil, por defenderem, exatamente, a filosofia ementada em sua base de ensino: o professor Anísio Teixeira (1900-1971), que em meados do século passado defendia o ensino integral no País; o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), idealizador desse projeto a partir da década de 1980, e do ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994), que implantou  no Estado escolas em turno integral com a construção de pelo menos 500 Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). Infelizmente, por ignorância política dos que se opunham a tudo que o caudilho fazia (a ala conservadora da política nacional e parte da grande imprensa temiam que o socialismo de Brizola chegasse à Presidência da República), o projeto da escola pública integral foi para o brejo. Sepultada em cova rasa, o projeto foi exumado em Nova Lima por Flávio de Almeida, um militar que virou político e crecheiro autodidata, ao resgatar esse modelo de semi-internato infanto-juvenil gerido pela comunidade (em latim, comum, geral, compartilhado por muitos). Portanto, desvinculado da caneta política. Sem a intromissão do poder público em seu seio, esta creche, que tem o nome de  um dos 12 apóstolos escolhidos por Jesus para acompanhá-lo na vida pública, está livre do devaneio político que enterrou o sonho de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Brizola. Vamos torcer para que os empresários de nossa cidade e o bem-aventurado prefeito Cassinho  ajudem o Flávio, porque essa é, com certeza, a poção mágica para salvar o Brasil do analfabetismo político e nossas crianças das drogas.

 

Que Deus proteja o Villa (e meu amigo Jairo Gomes)

José Cleves

 

A renúncia do meu amigo Jairo Gomes (foto), que não quer mais ser presidente do Villa Nova, significa um coice nas pretensões do time que vive atolado em dívidas e maus resultados, naturalmente consequência de anos de atraso de seus governantes. Jairo, embora não tenha conseguido tirar o time do atoleiro, foi, indiscutivelmente, talvez o mais carismático de todos os presidentes. Generoso e sempre solícito – tem a parcimônia dos sábios e a presteza dos altruístas –, o fabuloso Jairo Gomes, se jogador fosse, teria estufado as redes dos adversários quantas vezes fosse necessário. O bastante para levar o clube à glória do passado, mas é apenas uma voz tênue, mansa, que exprime na alma o mais expressivo sentimento de amor ao clube. Quantas vezes  cruzei com esse vilanovense cafuzo nas ruas de Nova Lima, sempre trazendo debaixo do braço as contas impagáveis do seu vermelho e branco.
O assunto era repetitivo, mas de boa prosa. Jairo falava das dificuldades financeiras do time, de seu momento na competição e, após agradecer a atenção, lá ia ele outra vez subindo ou descendo ladeira atrás de dinheiro para salvar o Villa de mais uma crise. Não conseguiu. E se Jairo não conseguiu, ninguém mais conseguirá. O problema do Villa é crônico e vem do atraso de uma instituição do tamanho de sua cidade, mas que não foi renovada com o tempo. Embora as glórias do passado – e a condição de se manter, ao longo de sua existência, como o quarto maior time de futebol de Minas, o maior do interior, o primeiro fora da capital a ter jogadores convocados para a Seleção Canarinho, e o carisma que faz de seu estandarte uma grife  que vale ouro –, ninguém tirou proveito disso. Aliás, o Villa teve a sua chance de sair do atoleiro nas temporadas passadas (2011-2012), quando a capital ficou sem campo, com o fechamento do Mineirão e do Independência, em reforma para a Copa de 2014. Qualquer político, ainda que degenerado, optaria por Nova Lima para sediar os jogos dos times da capital, pela tradição futebolística da cidade e a grife Villa Nova. Mas o Governo do Estado optou por Sete Lagoas. Faltou topete aos nossos políticos para reverter esse erro. Ninguém peitou o então governador Aécio Neves, em defesa do nosso Villa Nova. Engoliram o sapo e o Villa capitulou, miseravelmente. Se o Leão tivesse a sua Arena multiuso, seria hoje locatário de grandes eventos e o Jairo Gomes não seria apenas mais um retrato na galeria de seus ex-presidentes. Que Deus proteja o Villa, mas as notícias vindas do Bonfim não são alvissareiras.

 

Por quê Nova Lima

O prefeito de Nova Lima, na Grande BH, Cássio Magnani Junior, tem motivos de sobras para estar rindo à toa.  E não é para menos. O Índice deDesenvolvimento Humano Municipal (IDHM) da cidade é o melhor do Estado e o 17º do Pais, ou seja, está à frente de 5.547 dos 5.564 municípios da federação, segundo dados de 2010 divulgados pela ONU recentemente.

Entre 2000 e 2010, a dimensão que mais cresceu em termos absolutos foi Educação (com crescimento de 0,161), seguida por Renda e por Longevidade. Já a renda per capita média de Nova Lima cresceu 263,92% nas últimas duas décadas, passando de R$ 475,88 em 1991 para R$ 829,30 em 2000 e R$1.731,84 em 2010. A taxa média anual de crescimento foi de 74,27% no primeiro período e 108,83% no segundo. A extrema pobreza (medida pela proporção de pessoas com renda domiciliar per capita inferior a R$ 70,00, em reais de agosto de 2010) caiu de 7,04% em 1991 para 2,91% em 2000 e para 0,51% em 2010. 

Ou seja,

Nova Lima tem números que justificam a sua condição de xodó da classe média e alta da Capital que, infelizmente, não conhecem o melhor dessa cidade tricentenária: o seu povo. A cidade respira ares de uma vida gostosa de se viver, com muita religiosidade, sinceridade e respeito aos outros. O pessoal dos condomínios e bairros luxuosos, como o Vila da Serra  e o Vale do Sereno precisa chegar mais. A dificuldade de se locomover no seu centro administrativo dificulta essa convivência, mas com um bom projeto de mobilidade urbana, seguramente que vamos receber de braços abertos nossos vizinhos e a satisfação será mútua.

Detalhe

Não é por acaso que escolhi essa cidade para morar e trabalhar. Mas, infelizmente, tive que me mudar novamente para Belo Horizonte, porque meus filhos têm negócios e compromissos na Capital que, a bem da verdade, sempre me cativou, mas nada parecido com o que encontrei em Nova Lima. Alguém pode perguntar: mas porque, então, essa foto de protesto ilustrando esse comentário. Sim, embora Nova Lima tenha a melhor qualidade de vida entre praticamente todos os municípios brasileiros, tem muita coisa a ser feita na cidade. Uma delas, é a questão da mobilidade urbana e o saneamento básico. A outra, é a luta interminável de todo brasileiro pela moralidade das coisas públicas. Aqui não é diferente, mas está melhorando agora neste mandato. Por isso, contnuamos comos nossos cartazes em riste. Essa chama não pode apagar.

 

 

 A farra erótica com o dinheiro público

José Cleves

 

A gastança e o desperdício do dinheiro público reclamados nas ruas pelos jovens é algo fora do comum no Brasil. Os 39 ministérios consomem algo em torno de R$ 611 bilhões/ano, creio que 30 a 40% dessa fortuna são jogados fora ou desviados, um absurdo. Acho até que já foi pior.

Na década de 1980, a farra era indecente. Os deputados com cargos maiores tinham direito a um Ford Landau com bandeirinhas sobre o pára-lamas  que emergiam da garagem encerados, vazando gasolina e com motorista cheirando a sabonete. Retornava à noite sem uma gota de combustível, invariavelmente, como ocorria praticamente com toda a frota oficial. Os parlamentares tinham jetons, cotas ilimitadas na gráfica e de tudo mais no gabinete.

Toda quinta-feira o carro-frigorífico distribuía toneladas de carnes nas mansões de ministros e chefes de poderes, algumas com mais de 20 funcionários, entre jardineiros, pessoal da cozinha, arrumadeiras, seguranças, etc.

Os apartamentos funcionais eram reformados à medida de sua ocupação, independentemente do tempo de uso e da reforma anterior. Deputados, ministros (políticos e do Poder Judiciário) e demais autoridades voavam mais do que os pilotos, inclusive para o exterior, ainda que somente na contabilidade, porque muitos deles prestavam contas de viagens fantasmas. A farra era tanta que a funcionária de um sex shop de Brasília contou-me que um determinado ministro comprava toda semana uma boneca inflável para se divertir na piscina e devolvia os pedaços furados à faca. Uma fantasia erótica com o dinheiro público  nunca revelada em detalhes.

O ex-presidente João Figueiredo (1979-1985) fazia churrasco quase toda semana na Granja do Torto e fugia à noite de moto para uma zona boêmia em Anápolis. Meu então colega de trabalho Gilberto Amaral, hoje colunista do Jornal de Brasília, sabia disso. O presidente passava na guarita de capacete e blusão preto sem ser percebido pelos repórteres.

O lixo diário das farras recolhido pela limpeza urbana, se reciclado, dava para colocar qualquer um milionário. Infelizmente, não havia Internet, só flagrante dos repórteres, boa parte deles comprometida com o poder. Se o pouco que vi e ouvi fosse para as redes sociais naquela época, haveria no Brasil uma revolução de deixar os franceses de boca aberta. Infelizmente, eram tempos difíceis. Basta! O jovens de hoje não suportam 1% disso.

A revolta do nada contra tudo

 

 

 

José Cleves

Os Protestos “contra tudo”, principalmente contra a corrupção, se espalharam por todo o País e já há um sentimento perplexidade e medo das instituições por conta dos baderneiros que infiltram-se entre a multidão para depredar e saquear os estabelecimentos comerciais. 

Por enquanto, o Exército não foi convocado para ocupar as ruas, e nem se cogita falar nisso, mas este recurso extremo não poderá ser descartado, até porque a violência aumenta à medida em que a mobilização ramifica pelo interior do País.

Novas demandas, como a votação da PEC 37, marcada para o dia 26, prometem engrossar o movimento que continua com a pauta aberta e sem um comando central. Dilma Rousseff  adota o discurso ufano-nacionalista de apoio aos protestos dos jovens que não arredam os pés das ruas, mas a verdade é que o Planalto não sabe direito como conduzir as negociações.

Desonerar a tarifa das passagens de ônibus em São Paulo, como informa o governo local, não será o suficiente para abafar revolta, até porque as reivindicações variam conforme a necessidade de cada estado. O PSDB tenta tirar partido da mobilização com criticas “ao Governo do PT”, mas o oportunismo tucano não teve repercussão na grande imprensa.

Os principais meios de comunicação do País seguem a recomendação dos ativistas que, em sua maioria, não quer envolvimento com partidos políticos. O foco dos  “caras pintadas” recrutados pela rede mundial de computadores continua sendo o “governo geral” (federal, estadual e prefeituras) num discurso uníssono pela melhoria dos serviços públicos e o fim da corrupção.

A expectativa é de que este movimento vá até o final da Copa das Confederações, com agendamento de passeatas conforme o calendário dos jogos, para obter maior visibilidade principalmente da imprensa internacional. As vozes das ruas, como definiu a presidente, soam cada vez mais agudas contra a corrupção e os desmandos, tendo como escopo o aumento das tarifas das passagens de ônibus e os gastos com a Copa 2014. Mas a verdade é que o povo perdeu a paciência com a classe política, hoje com credibilidade zero entre os jovens estudantes secundaristas e universitários cooptados pelas redes sociais para extravasarem o seu sentimento de revolta nas ruas. É a revolução que saiu do nada contra tudo. 

 

 

O povo perdeu a paciência

 

As vaias à presidente Dilma Rousseff sábado passado no Estádio Nacional Mané Garrincha colocam fim  ao mito de que futebol não se mistura com política no Brasil.

Aliás, os recentes protestos de rua lembram Nélson Rodrigues: o governo  pode não saber se há ou não movimentos políticos por trás destas manifestações, mas sabe porque está apanhando.

Não há dúvida de que o aumento das tarifas de ônibus é apenas o bode expiatório deste movimento. O carro-chefe dos protestos são a construção de monumentos fadados  ao abandono, à custa de uma pesada carga tributária, e o aumento da corrupção e da criminalidade urbana que avançam na mesma velocidade do sucateamento das estradas, aeroportos, saúde, educação e transportes públicos.

Uma hora o povo (a classe média e estudantil, principalmente) iria perder a paciência. No caso específico das vaias, elas ocorreram devido à mudança do perfil dos freqüentadores dos estádios de futebol, hoje somente acessível a pessoas da classe média para cima. O preço dos ingressos foi para as alturas. Na Copa das Confederações, varia entre  quase R$ 400 a R$ 4 mil.

Moral da história: trocaram o público-alvo dos caudilhos pela classe mais politizada nos estádios e, ao invés de palmas, ouviu-se apupos. Quem gasta essa fortuna para ver um jogo de futebol, naturalmente que não está nem aí para os programas sociais do PT. Está preocupado é com reforma tributária, reforma política e do judiciário, e com a inflação que está subindo à medida em que a econômica encolhe. Esse público não faz parte do 0800 do Governo Federal, pelo contrário, paga caro para ter educação, segurança e saúde e quer uma contrapartida do governo, como estradas e aeroportos de qualidade e uma tributação mais justa, além, claro, do fim da impunidade.

O governo, que permitiu a expulsão do povão dos estádios, deveria estar preparado para a recepção deste novo público, principalmente na abertura de um evento esportivo tão importante como este na capital federal, onde está a maior renda per capita do País. Pior é que esse fenômeno capitalista atingiu praticamente todos os campos de futebol do País. A TV paga banca os times e leva o espetáculo virtual para as residências e os bares, sem a necessidade de se gastar fortunas nos campos.

Parece ser o início da derrocada da política ufano-nacionalista dos caudilhos e ditadores que prometem milagres para engabelar o povo. Agora a coisa ficou mais complicada e Dilma Rousseff, que tem pinta de ser uma mulher séria, terá sérios problemas para reformar o seu mandato em 2014, a menos que consiga contornar a situação.

O povo quer investimentos nas políticas públicas, porque de pão e circo, estamos cheios.

 

 

Porque sou contra a PEC 37

José cleves

    A briga dos delegados com os promotores de justiça pela exclusividade da investigação judiciária ainda vai dar muito o que falar, mesmo após a aprovação ou rejeição da PEC 37, que limita as atividades do Ministério Público. Já demos a nossa opinião a respeito da polêmica, mas nunca é demais repetir que somos contra o projeto, na sua forma original, por uma razão simples: se a lei for aprovada, como querem os delegados, os promotores cruzarão os braços e o país vai para o buraco, porque vai acontecer o mesmo que ocorreu quando da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que praticamente proibiu a Polícia Civil e a PM de prenderem menores de idade e as corporações esmoreceram.

    Com a perda do poder de investigação, o MP certamente que  fará o mesmo em relação aos políticos. Ou seja, “já que não podemos investigar, deixa roubar (os políticos, principalmente)”. Uma espécie de greve branca.

    O ideal é que houvesse um acordo extra-Congresso entre promotores e delegados na divisão de suas tarefas. A Constituição Federal diz, no artigo 144, que é obrigação da polícia exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União. Já o artigo 129 atribui ao Ministério Público promover, privativamente, a ação penal pública; promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, etc. Como se vê, a Carta Magna promulgada em 1988 colocou delegados e promotores com poderes constitucionais para investigar crimes.

    Ocorre que as duas instituições não entram num acordo. O MP é um poder agregado importantíssimo para o combate à criminalidade, principalmente quando se trata de crimes praticados por políticos, porque tem mais autonomia administrativa e política. Falta disciplinar a coisa para evitar que um entre na seara do outro e que haja prevaricação.

    O delegado Marco Antônio Chedid, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de MG, tem razão quando diz que os promotores não estão investigando a polícia (eu tenho provas contundentes disso, porque aconteceu comigo e registrei o fato no livro A Justiça dos Lobos, p. 85), da mesma forma que a promotora de justiça Andressa Lanchotti tem razão ao afirmar que se a PEC for aprovada, a corrupção vai campear no País, porque a polícia judiciária, a estadual, principalmente, não investiga políticos (sou igualmente testemunho desse fato). Portanto, é melhor um bom acordo do que uma demanda deste tamanho. (Vote ao lado na enquete no contra ou a favor da PEC 37)

 

 

 

Enquete

Você é contra ou a favor da PEC 37

Sim (5)
50%

Não (5)
50%

Total de votos: 10

 

 

Atenção, Alckmin! (e jornalistas mal informados)

Os bandidos que atazanam São Paulo e o Brasil são barbados, os mesmos que arrombam os caixas eletrônicos, traficam armas e drogas, roubam o dinheiro do povo e "compram" parlamentares. Portanto, o buraco é mais embaixo

José Cleves

Boa parte da imprensa está botando fogo num debate perigoso para o Brasil e injusto para as suas crianças e jovens: o de que é preciso reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, como forma de se combater o elevado índice de criminalidade urbana no País.

O pavio foi aceso pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que desembarcou em Brasília com a receita da pólvora na mão para implodir o “dragão do crime” que assola a capital paulista e o resto do Brasil. Segundo o tucano, este dragão tem menos de 18 anos e precisa de ter a sua idade penal reduzida em pelo menos dois anos para ser banido da sociedade.

Inverteram a ordem dos fatores. Agora são os menores que usam os adultos, ao contrario do que dizem os boletins de ocorrência da polícia, onde o que mais se vê é bandido barbado usando crianças como escudos para ficarem na impunidade ou políticos com cara de vô desviando merenda das escolas para o enriquecimento ilícito em cima das crianças.

Ou seja, para os defensores dessa bandeira do Alckmin (e da imprensa maldosa), os meninos do Brasil é que são os culpados das mazelas e da violência no País. Seriam eles os responsáveis, por exemplo, pelos estouros dos caixas eletrônicos, tráfico de armas, de drogas, seqüestros, rombos nos cofres públicos, fraudes eleitorais e “compra de deputados”.

Não vai demorar muito e os mensaleiros vão falar que foram os nossos filhos é que compraram os deputados e não eles que são grandes demais para cometerem tamanho absurdo.

Ah, me ajude ai governador e seus Datenas da vida. Querer fazer a cabeça da opinião pública com esses absurdos, sem qualquer sustentação jurídica e números, é querer transferir os problemas do Brasil para quem não tem nem direito de defesa.

“Pequenos, violentos e quebrados

Se reduzirem  a menoridade para 16 anos, como querem muitos, o Brasil fará parte de uma minoria insignificante de países que adotam tal medida sem nenhum sucesso, pelo contrário, são modelos de nações atrasadas (Afeganistão, Coréia do Norte, Nepal e mais uma meia dúzia de países pequenos, violentos e quebrados). Pejorativos que, no Brasil de Alkmin e dos apresentadores sensacionalistas, se aplicam aos jovens.

A questão é que, com a opinião pública formada a ferro e fogo, grande parte dos políticos, mesmo sabendo que o buraco é mais embaixo, acaba concordando com essa mentira para falar a mesma língua do povo.

Em Minas, a A Rádio Itatiaia, campeã de audiência no Estado,  fez uma pesquisa com os parlamentares da bancada mineira para saber quem era contra ou a favor da redução da maior idade no País.

Claro que a maioria foi favorável a essa redução. Metade por incompetência e a outra metade por temer o eleitorado que já está de “cabeça feita” pelos formadores de opinião que pensam com os cotovelos. É fácil colocar a culpa em quem não tem emprego, família, oportunidade, principalmente quando gente de sua idade faz coisa errada e não tem correção da família ou do governo que simplesmente o ignoram.

Aliás, é o mesmo discurso dos que são contra os defensores dos Direitos Humanos, por entenderem, equivocadamente, que defender direitos fundamentais é defender bandidos.

A pecha chegou a tal ponto que alguns professores aboliram a expressão Direitos Humanos nas faculdades,  pelos Direitos Fundamentais Positivados, que vem a ser a mesma coisa, porém sem o composto.popularizado  pela  parte ruim da imprensa.

Os números provam que não são as crianças e os adolescentes que mais matam, mais roubam, mais corrompem e mais praticam crimes no País. Pelo contrário. Os dados provam que eles são vítimas de um governo que nunca investiu em educação como deveria, dificulta o primeiro emprego, não se preocupa com as crianças e nem com o seu futuro.

Crianças tratadas como ratos de esgoto

Já os adultos roubam, matam, seqüestram, estupram, traficam drogas, armas e corrompem as autoridades para desviar o dinheiro público e ficam impunes. Mentem para a população, abusam da autoridade e manipulam a opinião pública, como agora com essa discussão fora de foco.

Tenho cinco  filho, mais de 40 anos de jornalismo a céu aberto e, portanto, autoridade para falar sobre esse assunto com conhecimento de causa. Criaram o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas não arrumaram meios para tratamento do menor infrator, com internações dignas. O menor que pratica crimes é jogado na rua, como ratos de esgoto. Proibiram os nossos filhos de trabalhar, mas não arrumaram meios para  proporcionar-lhes estudos e qualificação profissional ao alcance de todos.

Em resumo, deram às crianças e adolescentes do Brasil o direito de apodrecerem na rua, em total estado de abandono e desdém, como se não fossem gente. Todo dia tropeço em crianças drogadas debaixo de viadutos em Belo  Horizonte.

Os marmanjos podem tudo

Já os marmanjos,  pelo contrário, podem tudo. Podem roubar, estuprar e  matar e, quando muito, pagar apenas 1/3 da pena, quando pagam. Podem  traficar drogas, armas e até usar as crianças e adolescentes como escudos. Porque esses parlamentares que são a favor da redução da maior idade no Brasil não votam leis obrigando o governo a investir mais na educação dos jovens? Porque não votam leis obrigando os bandidos a pagarem a pena total pelo crime cometido? Porque não votam leis obrigando os presídios a produzirem para o auto-sustento de seus internos? Porque não votam leis permitindo ao menor trabalhar, conforme o seu desejo, desde que estudem? Porque não votam leis mais duras para os adultos que roubam o dinheiro público?

Nunca vi, em todos esses anos de jornalismo, menor buscando armas e drogas no exterior, ou roubando o dinheiro público. Muito menos mentindo para a opinião pública. Podem pesquisar na Internet que verão que 99,9% dos bandidos brasileiros têm mais de 18 anos. Então, o foco da discussão sobre a criminalidade urbana no Brasil tem que ser outro,  não este.  Pelo visto, o discurso populista de Alkmin sairá pela culatra, a menos que prevaleça a burrice e a insensatez.

 

 

Estamos a procura de parceiros

 

Estou fazendo um esforço muito grande para manter a credibilidade do Jornal A Notícia, de Nova Lima (tablóide semanário de minha propriedade, com 5 anos de existência), nesta sua nova fase, evitando rótulos políticos e outras inconveniências resultantes de eventuais acordos comerciais para o custeio do veículo. Preciso, pois, com urgência, de uma parceria para tocar o negócio, mas seria muito bom para o interesse público – para Nova Lima, melhor dizendo – que o periódico não perdesse a confiança de seus leitores, ainda que tenha como sócio algum político. Portanto, quem estiver interessado, favor entrar em contato pelo telefone 9718.5711, ou pelo meu email josecleves@hotmail.com.  A proposta é a seguinte: aceito dividir o espaço do jornal com qualquer interesse político-partidário, desde que seja uma pessoa honrada e aceite as nossas condições, qual seja, jamais perseguir os seus adversários, plantar notícias maldosas para prejudicar esta ou aquela pessoa ou deixar de fazer o contraditório, no caso de acusações acerca de fatos de notório saber. Estou, portanto, disposto a “vender espaços” do jornal para quem contribuir com a sua veiculação, sem prejuízo do mix de reportagem e interferência na parte opinativa (editorial, artigos e colunas, de autoria de seu corpo editorial), mas cedendo ao parceiro o direito também de opinar, de fazer as suas criticas e de se manifestar naquilo que é de seu interesse. Como se vê, o que ofereço não está longe do que ocorre nos principais jornais do mundo, onde o dono tem a sua preferência política, parceiros comerciais e amigos, porque é ele quem banca as despesas e sabe onde o sapato está apertando. Os grandes jornais do Brasil, Folha de S. Paulo (dos Frias), Estadão (Mesquitas) e Globo (da família Marinho), sempre tiveram a sua preferência política e nem por isso deixaram de ter crédito junto aos leitores, embora nem sempre revelassem essas preferências publicamente. Bobagem. Trabalhei com repórteres destes jornais em Brasília e sabia até os políticos que eram ligados aos donos e que, portanto, deveriam ser poupados nos noticiários. Teve uma época, por exemplo, que os repórteres do Globo não podiam pegar pesado com determinados políticos da situação, ainda que tivessem motivos para tal. O mesmo ocorria com os da Folha e do Estadão. Um exemplo clássico disso ocorreu em 1989 com o meu colega Leonel da Mata, repórter da TV Globo, que perguntou ao então presidente da Câmara dos Deputados Antônio Paes de Andrade (1989-1991) se ele pintava o bigode (e pintava mesmo). O parlamentar não gostou da brincadeira e ligou para Roberto Marinho que demitiu o repórter no mesmo dia. Ficamos possessos com o ocorrido e no Sábado de Aleluia malhamos o Judas Antônio Paes de Andrade. O parlamentar pertencia ao poderoso PMDB de Ulysses Guimarães e foi várias vezes presidente em exercício do País no governo de José Sarney (1985-1990), que não tinha vice. Numa dessas interinidades, levou uma expressiva comitiva à sua cidade Natal, Mombaça, no Ceará, à custa do governo. Tornou-se, por essa razão, uma figura folclórica e objetos de chacotas.

 

 

 

Leia a edição da semana do Jornal A Notícia:

O fim da calvice

Capilart inova com

técnica perfeita de

micropigmentação

A Capilart, patrocinadora deste site, inova mais uma vez com uma técnica ainda mais avançada de resolver de vez o problema de quem sofre com a calvice. O procedimento não inclui implante nem fios de cabelos reais. Um aparelho chamado de micropigmentador, comumente usado para fazer tatuagens, pinta pontos  pretos que imitam um couro cabeludo com cabelos começando a crescer. A ilusão de ótica gerada dá a impressão de que os fios estão curtos, ainda na raiz.

Segundo o micropigamentador Cleves Henrique, o procedimento leva cerca de três horas. A tinta usada é permanente, assim como a de tatuagem. É recomendado um retoque após de três anos, para realçar os pontos pintados.

Cleves Henrique conta que já atendeu quase cem clientes à procura do serviço e que a satisfação tem sido unânime.
 

 

capilart.blogspot.com.br/

CAPILART 31 3785.1074 / 31 8375 6322 AV Afonso Pena, 3924, Mangabeiras  - Belo Horizonte / MG Artista: Cleves